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TRANSFORMAR ÁGUA EM ALIMENTOS

TRANSFORMAR ÁGUA EM ALIMENTOS

Não se pode mais continuar medindo a produção de alimentos em toneladas por hectare, o verdadeiro custo de uma tonelada de milho ou feijão deve ser calculado em função do consumo de água.

Dr. Víctor Villalobos Arámbula, Diretor Geral do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), está bastante ciente de sua responsabilidade. Por isso, aposta que produtores, governos e instituições técnicas promovam mais atividades de capacitação, investimento, transferência de tecnologia e inovação. “Há água sufi ciente no planeta. O problema é que temos de trabalhar para usá-la melhor. Se a agricultura continuar usando 70% ou 75% da água doce, a água disponível não será sufi -
ciente para atender à demanda de alimentos”. O Dr. Víctor tem a responsabilidade continental de fomentar uma produção agropecuária sustentável, ajudando a garantir o equilíbrio entre a produção de alimentos e o uso de recursos naturais fundamentais para a vida humana: terra e água.

O setor agrícola é o principal consumidor de água no mundo. Como é possível fazer com que este setor tenha menos impacto
sobre os recursos hídricos?

Efetivamente, de 70% a 75% da água doce é destinada à agricultura, um número que não preocupa apenas os produtores, mas também os consumidores. Por tradição, a água é distribuída de forma gratuita e, por isso, recebe pouca atenção. Sabendo da necessidade de melhorar o uso da água na agricultura, foram desenvolvidos sistemas modernos de irrigação, como a lavoura
de conservação, para melhor reter a água de acordo com o tipo de solo e uso. O uso da água deve ser visto de forma holística.
Não se trata apenas da irrigação ou seu uso, mas, sim, de sua origem, de como integrá-la, como captá-la e como dar a ela o melhor uso e destinação.

 

"é necessário um nova mentalidade dos profissionais da agricultura para que desenvolvam seu cultivos com visão diferente"

 

Que inovações e tecnologias estão sendo implementadas na América Latina para que seja alcançado o equilíbrio entre a produção e o uso eficiente da água?

Com a necessidade de uma produção maior e tendo em vista a diminuição da disponibilidade de água, novas ferramentas
tecnológicas vêm sendo criadas. Uma delas é a semeadura direta, praticada em plantações extensivas no Brasil e na Argentina, onde a água é retida pela matéria orgânica produzida pelos resíduos da colheita. Há outros sistemas eficientes, como a irrigação por gotejamento, a irrigação pressurizada, o uso de estufas ou o cultivo protegido. Em cultivos a céu aberto, usa-se muito o plástico para controle de ervas daninhas e da evaporação da água. Há muitas tecnologias na América Latina, mas todas requerem investimentos, dos quais alguns são especialmente elevados, como é o caso do cultivo protegido por estufas.

Por que os agricultores preferem adotar a irrigação extensiva ao invés de usar sistemas mais eficientes? Que programas
devem ser fomentados para conscientizá-los sobre o uso da água?

Precisamos de programas de extensão, educação e capacitação no uso da água para que os produtores passem a vê-la como um recurso que está se esgotando e que, por isso, deve ser usado de forma eficiente. É necessário implementar boas práticas agrícolas, não apenas associadas à água, mas com a finalidade de promover uma agricultura mais sustentável, onde a água e o solo tenham um papel importante. Alguns países não cobram pela água, mas cobram pela energia elétrica usada para bombear a água do subsolo. Trata-se, então, de um mecanismo pelo qual o agricultor começa a tomar consciência por ainda ter de pagar pela eletricidade – subsidiar a água e a eletricidade não ajuda a criar uma consciência sobre o uso da água.

Quais são os mecanismos que devem ser reforçados para garantir a disponibilidade de água para outros setores produtivos que estão pressionados pelo grande uso dos recursos hídricos na produção agrícola?

Temos de começar a trabalhar em políticas públicas sobre o subsídio para a automação da irrigação. É importante esclarecer que os agricultores serão capazes de gerenciar melhor a água através de políticas governamentais. É possível criar programas que subsidiem sistemas de irrigação pressurizada, o uso de bombas ou de sistemas que evitem o desperdício de água. É necessário fomentar essas políticas públicas visando o subsídio em tecnologia da água.

Por que não conseguimos levar à frente grandes projetos de coleta de água de chuva com a alta pluviosidade de nossa região? O que está sendo feito em áreas áridas e semiáridas que vêm crescendo em nossa região?

Devemos levar em consideração que obras de infraestrutura hídrica são muito caras. Represas e reservatórios são obras que exigem muito investimento, e a maioria dos países só fez obras deste tipo no final das décadas de 1950 e 1960. Agora, o mais importante é o trabalho integrado ao sistema de bacias hidrográficas. Um esquema moderno que veja a água como um componente, em que haja um sistema de captação de água nas florestas, com o benefício de água própria para o consumo humano e para o uso na aquicultura, pecuária e, por fim, que use adequadamente águas residuais de forma integrada.

O uso intensivo da terra e a erosão causada pela remoção da cobertura vegetal do solo dão início a um processo de desertificação permanente e de rápido avanço, o qual obriga a tomada de decisões para a recuperação de solos mediante programas de refl orestamento. No curto prazo, a demanda é de refl orestamento e recuperação da vegetação natural; enquanto que no longo prazo, é necessário melhorar a estrutura física do solo.

Quais são as medidas de adaptação e mitigação que estão sendo ou que devem ser tomadas pelos agricultores frente aos impactos de secas e inundações decorrentes dos efeitos das mudanças climáticas?

Na realidade, o que está acontecendo na agricultura não pode ser resolvido com base nos regimes históricos de chuva,
porque já têm ocorrido mudanças. O que se deve fazer é tomar medidas preventivas e começar a adaptar a agricultura a
essas mudanças. Uma das medidas de adaptação é começar a produzir variedades que tenham maior resistência ao
estresse hídrico. Embora não haja bons rendimentos, há, pelo menos, algum mecanismo pelo qual seja possível obter
colheitas adequadas apesar do clima. Há uma grande orientação da agricultura e da pesquisa científi ca no que diz respeito
ao aperfeiçoamento genético de plantas e animais. Devemos sair de uma pecuária extensiva, com pastagens de grande
porte, para uma mais intensiva, programada de acordo com a carga dos animais, por unidade de superfície. 

Devemos também usar fontes alternativas de energia, não necessariamente petróleo ou usinas hidrelétricas, mas outras que
sejam ambientalmente corretas, como a energia eólica e a solar. Não podemos esquecer que é ainda muito importante reduzir
o uso de máquinas agrícolas em pequenas propriedades, é possível trabalhar muito usando pacotes tecnológicos modernos.

Quais investimentos são urgentes para tornar o setor agrícola latino-americano mais eficiente?

Devemos fazer investimentos pesados no desenvolvimento de capital humano e na capacitação dos produtores, além de fomentar mecanismos de transferência de tecnologia, seja em âmbito de instituições internacionais, regionais ou nacionais. É
necessário haver uma nova mentalidade dos profi ssionais agrícolas para que o cultivo seja feito sob uma visão diferente. É
preciso, também, que haja muita conscientização dos produtores: existem, insisto, ferramentas tecnológicas que nos permitem atenuar ou reduzir o impacto negativo sobre o uso da água, mas muitas delas não estão disponíveis aos produtores. Neste sentido, são válidos todos os esforços que façam países e governos repensarem os programas acadêmicos dos profi ssionais de agronomia com essa nova visão. No curto prazo, é importante dispor de mecanismos fortes de capacitação para agricultores e fortalecer programas de extensão.

O que é está sendo feito para que haja uma mudança cultural do setor agrícola e capacitação dos agricultores em
questões como sustentabilidade, efi ciência e inovação?

Os agricultores, com suas experiências, são pessoas conscientes: adotam inovações na medida em que percebem seus benefícios, sobretudo se houver benefícios econômicos, aumento da produção e facilitação do trabalho. Está nas mãos dos governos ou de instituições que prestam assistência técnica ensinar quais são essas tecnologias, como elas estão disponíveis e como devem ser usadas. Não são processos de longo prazo: de forma consciente, o agricultor adota uma tecnologia inovadora ao fazer comparações e perceber os benefícios na propriedade vizinha ou no modelo de algum instituto; ou se perceber que nãohá muitas complicações ou métodos caros para a aplicação de tal tecnologia.

Este ano, a população mundial chegou a sete bilhões de habitantes. Somos capazes de atender a essa enorme demanda
hídrica? O que deve ser feito para garanti-la, hoje e no futuro?

Essa é uma realidade, e se prevê que chegaremos a nove bilhões em 2050. Esse crescimento populacional gerará muita
pressão sobre a produção de alimentos e exploração dos recursos naturais. A grande questão é saber se seremos capazes
de alimentar, com recursos limitados, essa população que não para de crescer. Há água suficiente no planeta. O problema
é que temos de trabalhar para usá-la melhor. Por isso, nós, do IICA, temos debatido a necessidade de se mudar a visão da
água como um recurso gratuito, às vezes, usado de forma pouco sustentável. A produção agrícola deve se conscientizar sobre
o uso da água na produção de alimentos. Em outras palavras, não podemos continuar medindo a produtividade em toneladas
por hectare, mas, sim, em toneladas por metro cúbico de água. Temos, aí, uma mensagem: estamos abrindo mão de um
recurso absolutamente necessário e cada vez mais limitado. Minha opinião é de que a água não apenas não será suficiente,
como também será imprevisível sua disponibilidade devido às mudanças climáticas. Em alguns casos, haverá excesso; em
outros, faltará tanto para a produção de alimentos por meio da agricultura ou da pecuária. Por isso, é necessário que nos
adaptemos. Para mim, essa adaptação tem a ver com inovação. Felizmente, avanços tecnológicos na genética, no melhoramento de plantas e animais funcionam como possíveis soluções alternativas. No fim das contas, o direito à água é um direito universal que gerará conflitos quando esta se esgotar, como consequência do modo em que a estamos usando.

HISTÓRICO PROFISSIONAL
Dr. Víctor Villalobos Arámbula nasceu no México e é um profissional de renome, especializado nas áreas de
agricultura, recursos naturais e genéticos. Ostenta um currículo variado como professor, pesquisador, diretor de
pesquisa, funcionário de organização internacional, funcionário público, administrador, negociador e líder de grupos
multidisciplinares de análise. Atua como Diretor Geral do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura
(IICA) desde 2010 até 2014.- Engenheiro Agrônomo, formado pela Escola Nacional de Agricultura, em Chapingo, México. Mestre em Genética Vegetal, no Colégio de Pós-Graduação de Chapingo. PhD em Morfogênese Vegetal na Universidade de Calgary, no Canadá.
- Publicou dois livros: “Contribución del Cultivo de Tejidos al Mejoramiento y Conservación de las Plantas”, em 1982,e “Los Transgénicos: Oportunidades y Amenazas”, em 2007.
- Atuou como professor dos níveis de licenciatura, mestrado e doutorado na Universidade de Chapingo (UACH), no Colégio de Pós-Graduação (COLPOS) e no Centro de Pesquisa e Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional do México. Catedrático do Centro Agronômico Tropical de Pesquisa e Ensino (CATIE) e de cursos de especialização na Argentina, Áustria, Colômbia, Costa Rica, Chile, Equador, Jordânia, Irã, Venezuela, entre outros.
- Foi Subsecretário de Recursos Naturais e Subsecretário de Agricultura no México.
- É membro da Real Academia Sueca de Agricultura e Silvicultura desde 2004.
- Obteve o grau de Doutor Honorário do CATIE em 2004; integrou o Grupo Assessor de Alto Nível do Centro Consultivo de Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR); foi membro da Comissão de Ciência e Tecnologia do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CONACYT) e da Universidade da Califórnia UC - Mexus.
- Em 1995, foi homenageado pelo Presidente do México por seu trabalho em biotecnologia aplicada à agricultura em organizações internacionais.