SAÚDE
A ÁGUA EM SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA
Após os desastres, a água passou a ser o bem mais importante para a população afetada, de modo que a escassez ou contaminação deste recurso pode ter consequências bastante graves para a saúde pública.
A ÁGUA EM SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA
Serviços de água como abastecimento e esgoto são vulneráveis a
desastres, podem ocorrer danos nas instalações, rompimento das
tubulações e interrupção das operações por cortes de energia elétrica.
TON VLUGMAN
Consultor de Saúde e Meio Ambiente da Organização
Pan-americana de Saúde / Organização Mundial da Saúde
Após um desastre, a água passa a ser o bem mais importante para a população afetada, de modo que a escassez ou contaminação deste recurso pode ter consequências bastante graves para a saúde pública.
A água é um dos principais meios de transmissão de doenças. Por isso, as autoridades devem garantir sua potabilidade ao abastecer as populações afetadas e com as quantidades adequadas. Para proteger a higiene pública, as autoridades também devem garantir a existência adequada de saneamento básico, descarte de resíduos, higiene dos alimentos, não deixando de prevenir a reprodução de vetores de transmissão de doenças.
Além do abastecimento de água, há outros setores que podem ser afetados por grandes desastres, como os serviços de saúde, as telecomunicações, o fornecimento de energia e a infraestrutura e serviços de transporte. Da perspectiva da saúde, os planos nacionais, regionais e locais de preparação e prevenção a desastres devem incluir todos esses setores.
As emergências interrompem a vida socioeconômica e prejudicam infraestruturas físicas e serviços, extrapolando o controle das autoridades afetadas.
A água potável é o principal recurso que deve ser proporcionado às populações afetadas por desastres. Deve-se dar prioridade máxima às áreas onde houve aumento dos riscos de saúde, em especial, as de alta densidade demográfica e em que houve interrupções graves de serviços. Como prioridade secundária, estão as áreas com alta concentração populacional que sofreram interrupções moderadas nos serviços, ou as áreas como uma média demográfica moderada, mas com graves interrupções. Já o terceiro item na lista de prioridades corresponde às áreas com pouca população e com menos interrupções dos serviços.
IMPACTOS ESPECÍFICOS E MEDIDAS PREVENTIVAS NOS SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA
Os principais riscos para as instalações de abastecim ento de água em um desastre são os danos físicosque podem ser causados pelo impacto do desastre. No entanto, o maquinário pesado das operações de socorro também pode afetar hidrantes, válvulas, tubulações e conexões domésticas. É frequente que a água das tubulações seja contaminada durante as
inundações, uma vez que é possível a entrada de resíduos e contaminantes pelas novas fendas, em especial, quando a pressão da água é baixa e as usinas de tratamento estão inundadas. Os componentes dos sistemas de água podem apresentar falhas devido a mudanças na qualidade da água, por exemplo, por contaminação química ou cinzas vulcânicas. Além disso, é possível haver curtos-circuitos, interrupções do fornecimento de energia elétrica e falhas nos serviços de comunicação e transporte.
Principais medidas preventivas. A localização da estação de tratamento de água deve ser adequada e projetada com estruturas resistentes a impacto. A fim de reduzir a dependência do abastecimento auxiliar de energia, é possível usar sistemas de gravidade ou duas conexões elétricas independentes.
Os geradores de emergência devem ser instalados em componentes essenciais do sistema, por exemplo, nas estações de tratamento e nas bombas, devendo ser inspecionados e ligados regularmente, de preferência uma vez por semana. Nas áreas mais vulneráveis, recomenda-se descentralizar as fontes de água, operações, armazéns, equipamentos de emergência
e postos de abastecimento. O sistema deve ter, pelo menos, a capacidade de prestar um serviço parcial em caso de emergência. Como os sistemas maiores são mais vulneráveis, recomenda-se ter vários recursos e subunidades interligadas. Os sistemas de ralos são mais recomendáveis que os de ramificações, pois permitem o uso de vias alternativas e
uma maior flexibilidade. É aconselhável assegurar a instalação de válvulas para a conexão ou desconexão de subsistemas e, se possível, duplicar as principais linhas de distribuição.
A instalação de válvulas de comporta aumentará a flexibilidade do sistema na conexão ou no isolamento de subsistemas, conforme o caso. Por último, os reservatórios de armazenamento de água devem estar distribuídos de forma uniforme em todo o sistema.
É necessário estabelecer práticas de operações e manutenção dos equipamentos e instalações, de modo a incluir o abastecimento de armazéns, a manutenção e atualização de registro, a consulta a manuais dos equipamentos e plantas dos sistemas, instalações e estações. É preciso proteger instalações e equipamentos e armazenar gás, cloro e outros reativos.
Muitas vezes, os modelos computadorizados podem ajudar a localizar danos ocultos e otimizar o controle do sistema. É possível melhorar os sistemas de transporte e comunicação se houver rádios e telefones portáteis suficientes. É necessário contar com veículos de transporte adequados e mapas que indiquem rotas alternativas.
TERREMOTOS E DESMORONAMENTOS
Impactos. O solo pode ficar saturado de água (liquefação do solo), causando choque de falhas geológicas, movimentações
do solo e desmoronamentos. Os tanques, reservatórios e estações de bombeamento podem ficar inoperantes, causando mudanças ou perdas de aquíferos.
A pressão da água pode diminuir devido a vazamentos. Em contrapartida, a demanda pode aumentar por causa
dos incêndios e do número crescente de pessoas que armazenam água. É frequente o rompimento ou a quebra
de intersecção e conexões das tubulações (aproximadamente a cada 100 m). Muitas vezes, os revestimentos
e suportes de poços (perfurados e de outros tipos) são fraturados por cisalhamento, e as estruturas de concreto
podem se quebrar, prejudicando edifícios.
ERUPÇÕES VULCÂNICAS
Impactos. Em caso de erupção vulcânica, é possível ocorrer a perda de aquíferos e mudanças na qualidade
da água devido aos contaminantes vulcânicos (enxofre, dióxido de enxofre, ácido sulfúrico e clorídrico, flúor, metano
e mercúrio). As estruturas e os equipamentos (por exemplo, os hidrantes de incêndio) podem ser esmagados,
destruídos ou enterrados. Além disso, os incêndios são frequentes, os filtros de ar obstruídos podem causar falhas nos motores, e outros componentes do sistema de água também podem ser danificados com a densa sedimentação (cinzas e lama).
Prevenção. Em termos de prevenção, é importante identificar as áreas perigosas, montar mapas de riscos e elaborar
um plano adequado para uso e evacuação dos terrenos.
É recomendável ter estruturas com declives e telhados lisos. Telhados e janelas que ficarem de frente para o vulcão
podem ser protegidos com lâminas de metal. Pode-se estabelecer na área um programa de monitoramento
de vulcões e de monitoramento regular da qualidade da água (pH, temperatura, enxofre e flúor), que podem ajudar
a prever uma erupção. É possível também identificar instalações que coletem e analisem as cinzas para determinar
se há substâncias tóxicas. É necessário armazenar filtros de ar, bocas de filtros e roupas de proteção.
FURACÕES
Impactos. Os escombros transportados pelo ar e pelo vento causam danos físicos nas estruturas, principalmente
em telhados, portas e janelas. De modo geral, árvores e postes da rede telefônica são arrancados,rompendo as tubulações.
As estações de captação de água e tubulações podem se entupir com os escombros e sedimentos. As chuvas intensas causam inundações e danos (especialmente no equipamento elétrico). Em particular, as áreas costeiras estão sujeitas a uma grave erosão. Além disso, as vias de acesso podem ficar bloqueadas
Prevenção. Na medida do possível, devem-se estabelecer instalações em vales estreitos, nas partes altas de morros ou em áreas costeiras. É necessário, também, aplicar às estruturas técnicas de construção à prova de furacões. Aconselha-se plantar árvores como quebra-vento, mas não se deve plantá-las muito próximas às instalações. As tubulações não devem
acompanhar o curso de um rio nem estar paralelas à costa, devendo-se também reduzir a quantidade de tubulações que cruzem rios.
É preciso verificar se os grandes tanques de armazenamento estão cheios antes de uma tempestade, a fim de evitar rupturas. Esses tanques devem ter uma sustentação adequada e estar ajustados internamente.
A instalação de válvulas de fechamento manual ou de regulagem automática de fluxo ajudará a evitar perdas nos reservatórios. É necessário instalar e fechar obturadores para chuvas. Aconselha-se melhorar
a estrutura dos pontos de captação de rios e instalar válvulas de limpeza nas tubulações. Antes da chegada do furacão, é importante limpar os filtros e fechar os pontos de captação de água.
INUNDAÇÕES
Impactos. O dano das inundações é causado pelas ondas e correntes de água que transportam resíduos, podendo prejudicar as margens dos rios e derrubar construções. É possível haver uma grave contaminação dos recursos hídricos: bacteriológica (pelas águas residuais), química e física (pelos sedimentos). A danificação de vias e pontes e a grande quantidade de lama fazem com que muitas áreas fiquem inacessíveis.
Prevenção. A consulta a mapas de riscos, que indicam os níveis de inundação e as zonas de risco, possibilitará a construção de
instalações acima dos níveis de inundação. As estruturas deverão resistir à pressão da água (devem ser reforçadas em pontes, e as tubulações subaquáticas devem estar sob bordas de proteção).Caso as instalações estejam em uma zona de inundação,
as bombas, o equipamento elétrico e os controles devem estar num lugar elevado ou devem ser de desmontagem rápida para
que sejam armazenados em lugar seguro.
É possível tomar algumas medidas para controlar a inundação, como a instalação de diques, represas ou canais de desvio.
Sacos de areia podem evitar alguns riscos das inundações, mas é necessário haver participação da população e infraestrutura
adequada. Telas também podem ajudar a evitar a erosão. Recomenda- se que todos os sistemas automáticos contem com
mecanismos manuais de substituição, e que as estações de tratamento tenham um canal de desvio que permita a desinfecção
da água não tratada.
Antes da inundação, devem-se lavar os filtros, encher os reservatórios de armazenamento e aumentar as reservas de substâncias químicas. Depois de retirada a água da inundação, é necessário enxaguar o sistema de distribuição e desinfetar os
pontos de abastecimento. É importante aconselhar as pessoas afetadas que deixem a torneira aberta por pelo menos dez minutos antes de usar a água.
SECAS
Impactos. Durante as secas, o sistema de distribuição pode ressecar, causando vazamentos e entupimento
nas tubulações. Além disso, como a concentração de contaminantes é maior, a qualidade da água diminui.
Prevenção. É necessário contar com vários tipos de fontes de água. Nos setores agropecuários, industriais
e municipais, é preciso introduzir esquemas de conservação de água para aumentar os reservatórios
de armazenamento e permitir a redistribuição. É necessário identificar e preparar as fontes alternativas
de onde será transportada a água, em caminhões, para a população afetada.

Pré-desastre
Esta fase visa a tomada de medidas para evitar ou reduzir o impacto, capacitar pessoal além de
desenvolver, testar e atualizar os planos de operação que entrarão em ação na fase 2.

Resposta frente à emergência
Aqui, devem ser tomadas medidas para abordar as áreas identificadas como prioritárias de controle da saúde ambiental.
Esta fase dura sete dias, mas os períodos mais críticos são o de prevenção e os três primeiros dias (a resposta imediata).

Reabilitação
Esta fase implica na recuperação, a curto prazo, dos níveis dos serviços de saúde ambiental antes do desastre e na aplicação
de medidas de longo prazo para a reconstrução.
