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O SETOR DE ÁGUA FLUI EM TEMPO DE CRISE
A américa latina e os seus projetos do setor de água e saneamento conseguiram se esquivar dos efeitos da crise econômica, que desde 2008 afeta o mundo. Mas, é necessário continuar a dar prioridade ao tema do investimento e a considerar o custo gerado pelos eventos hidrometeorológicos extremos.
Até o momento, a América Latina e os seus grandes projetos de água e saneamento conseguiram se esquivar dos efeitos da crise econômica que afeta o mundo desde 2008.
“No final de 2010, o prognóstico de crescimento da América Latina e do Caribe é maior que o das economias desenvolvidas; as
instituições financeiras, monetárias e fiscais são muito mais sólidas do que duas décadas atrás; os recursos naturais demandados pelo mundo são abundantes na nossa região; e a política social vem dando conta de avanços importantes por meio do uso de ferramentas cada vez mais eficazes”, afirmou Luis Alberto Moreno, diretor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) ao divulgar o último relatório no qual foram analisados os efeitos da crise econômica na região.
Segundo o relatório, este panorama favorável é sustentado pelo fato da economia política da região ser regida por governos emocráticos com características distintas, que adotaram um enfoque bastante pragmático de políticas macroeconômicas eficazes, que garantirão êxito à região.
O saldo também é positivo quando estas decisões são projetadas no setor de água e saneamento. “Os dados do Departamento de Pesquisa do BID relativos a um amplo conjunto de países da América do Sul, integrado por Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru e Venezuela, que representam 93% do PIB da América Latina, indicam que os níveis de investimento não foram afetados pela crise econômica de 2008”, afirma Paulo Varella, Diretor da Agência Nacional de Águas, acrescentando que importantes projetos do setor de água e saneamento não foram afetados.
O Banco Mundial e representantes da Comissão Nacional de Águas do México (CONAGUA) sustentam essa mesma posição, afirmando que não houve efeitos negativos no setor água: “Nos últimos 20 anos (desde a década de 1980), a América Latina vem experimentando uma revolução econômica silenciosa que a permitiu absorver os choques externos da economia, tal como visto na crise anterior, de 2008, e essa firmeza ainda se mantém”, é o parecer de Augusto de la Torre, economista chefe do Banco Mundial.
Essa firmeza foi transmitida ao setor de água e saneamento, onde as obras continuam. Um grupo de especialistas mexicanos
reconhece inclusive que a estratégia foi promover este tipo de investimento. Colin Herrón, Assessor para Projetos Estratégicos da CONAGUA, explicou: “Os principais projetos hidráulicos atualmente em construção no México são: Túnel Emissor Oriente (TEO), Planta de Tratamento de Água Residual de Atotonilco e as Represas para o Armazenamento de Água Potável El Realito e El Zapotillo. Entre as obras realizadas, há 260 novas plantas de tratamento e a recuperação e ampliação de outras 51. As construções não foram afetadas de forma significativa pela crise econômica”.
O fato das maiores obras da região não terem sido afetadas não significa que haja despreocupação frente aos novos choques da turbulência financeira iniciada em 2011, que vem afetando os Estados Unidos e a Europa, e que poderia vir a ter impacto em economias emergentes como as da China, Brasil, Rússia e Índia, retardando as linhas de financiamento para novas obras hidrológicas.
“É inegável que alguns projetos, quer sejam de infraestrutura viária ou hídrica, podem ser afetados, mas, isso se deve ao pouco interesse que despertam nos investidores, o que não deve ser necessariamente grave”, sustentou Georgina Kessel, Diretora Geral do Banco Nacional de Obras e Serviços do México.
Dados concretos sobre as obras necessárias são publicados desde 2008 e emanam de um estudo da Organização Pan-americana da Saúde, BID, Banco Mundial e da Associação de Engenharia Sanitária Ambiental, intitulado “Saneamento para o desenvolvimento: Como estamos em 21 países da América latina e do Caribe?”, que determina o que é necessário para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio em água e saneamento. O Brasil precisa de obras no valor de US$62 bilhões, Peru US$2,687 bilhões, Equador US$1,8 bilhões, Chile US$860 milhões, Costa Rica US$745 milhões, Nicarágua US$350 milhões, e o México precisa de “US$4,5 bilhões nos próximos 10 anos”, segundo o Diretor da CONAGUA, José Luis Luege.
O principal temor sobre o qual concordam os especialistas consultados por Aqua Vitae é o reconhecimento do custo crescente
e acumulativo ocasionado pelo impacto destrutivo dos eventos hidrometeorológicos externos sobre a infraestrutura de água e
saneamento.
Em 2010 houve, na América Latina, 98 desastres naturais relacionados ao clima, que deixaram 225.000 mortos e afetaram 13,8 milhões de pessoas. O relatório “Desastres e Desenvolvimento: o impacto econômico em 2010”, da CEPAL, estima que o impacto econômico foi de US$ 49,188 bilhões. (Ver quadro)
Dada a importância do tema e a pertinência dos investimentos que devem continuar a ser feitos, é crucial que o setor hídrico
regional esteja preparado para enfrentar uma nova recessão econômica, principalmente porque, de acordo com a ONU, serão
necessários investimentos de US$150 bilhões nos próximos anos.
“O panorama econômico mundial continua sombrio e o cenário da região não é uniforme: há alguns países mais e outros menos preparados para a contingência. Pensando nos pior situados, a experiência ensina, através da analise da economia política dos cortes orçamentários em tempos de crise, os investimentos são diferidos e os gastos de manutenção da infraestrutura existentes são cortados”, afirmam os consultores Gustavo Ferro e Emilio Lentini, da CEPAL.
