AQUAVITAE

EDIÇÕES COMPLETAS « voltar

CULTURA

PATRIMÔNIO CULTURAL AZUL

PATRIMÔNIO CULTURAL AZUL

O Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS) designou o ano de 2011 para dar um lugar de destaque à água como cultura material da humanidade.

Por BORIS RAMÍREZ

“A água é um dos recursos fundamentais que tornam a vida possível. Permitiu o desenvolvimento e a criação de uma importante cultura material em forma de objetos, tecnologia e lugares. A forma de obtê-la, armazená-la, aproveitar sua energia e conservá-la motivou os esforços humanos de várias maneiras. Foi também o catalisador para o desenvolvimento de importantes
práticas culturais que geraram expressões de patrimônio cultural. Serviu de inspiração para a poesia, literatura, pintura, dança e escultura; deu origem a filosofias e práticas religiosas que deram forma a nossas crenças e costumes”.

Com essas palavras certeiras, a Dra. Susan McIntyre-Tamwoy, membro do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS) da Austrália e pesquisadora da Universidade James Cook, explica porque essa organização mundial decidiu dedicar o ano de 2011 para destacar a água como um patrimônio cultural da humanidade. 

Os especialistas afirmam que uma maior exploração do patrimônio da água deve ir além da mera apreciação técnica desenvolvida ao longo da história para usá-la, consumi-la e gerenciá-la. Há valores imateriais, como a espiritualidade e a estética, inspirados na água e que dão significado a diversas práticas, estruturas e objetos culturais que vinculam a relação da humanidade com a água e, que por sua vez, estão presentes em nosso patrimônio cultural. Do total de monumentos, lugares e valores imateriais relacionados ao elemento
hídrico declarados patrimônio cultural, a América Latina se orgulha dos seguintes:

DEUS CHAAC
Deus maia regente das chuvas. Representa a energia criadora e,
na simbologia maia, faz uma analogia de que se a água é o símbolo
da vida para o planeta, dentro de cada um, ela é a energia
que nos trouxe à existência.


É considerado um dos principais deuses maias, venerado na
península de Yucatán, no México, e considerado o deus das
chuvas, dos raios, dos relâmpagos e da água. Os espanhóis o
consideraram o deus dos milharais, devido à sua importância no
cultivo desse produto básico e vital para os indígenas.

DEUS TLALOC
Deus asteca das chuvas e dos relâmpagos. Tlaloc era conhecido como provedor,
pois tinha o poder de produzir a chuva que fazia o milho crescer. Na
concepção de mundo asteca, era o senhor dos fenômenos atmosféricos e dos
espíritos das montanhas.

Os astecas viveram no México durante os séculos XV e XVI e representaram Tlaloc
como um homem que usava uma rede de nuvens, uma coroa de penas, sandálias
de espuma e que carregava cascavéis, com as quais produzia os trovões.

SISTEMAS DE IRRIGAÇÃO INCA
Os incas foram os habitantes do maior império americano pré-colombiano. Ao final do século XIV, começaram uma expansão que os levou a estender sua população da região de Cuzco, no Peru, até as zonas montanhosas da Cordilheira dos Andes,
na América do Sul. Chamaram seu território de Tawantinsuyu que, em quéchua, o idioma inca, significa As Quatro Partes, já que havia regiões e climas muito variados.


Por essa condição geográfica e pela população que deviam atender, os incas desenvolveram um sistema de irrigação para vencer as dificuldades ambientais que enfrentavam. Construíram terraços ao longo das montanhas e, para irrigar suas plantações, alteraram o curso dos rios para canalizar as águas até os terraços. Com essa obra de engenharia hidráulica, os incas cultivavam seus produtos nos terraços e, no lugar do arado – que desconheciam –, usavam uma enxada que empurravam com os pés. Incorporaram conhecimentos hidráulicos, tais como canais e boqueirões, que possibilitavam
a irrigação, especialmente do milho.

CHINAMPAS DE XOCHIMILCO
As chinampas foram plantações desenvolvidas pela cultura pré-hispânica mexicana nos séculos XV e XVII. Esses hortos (primeiros cultivos hidropônicos registrados) flutuavam na superfície dos lagos. A tecnologia das chinampas baseou-se na construção de uma espécie de balsa, feita com troncos amarrados com cordas de ixtle (fibra têxtil). Essas estruturas tramadas com galhos, varas e troncos mais finos eram cobertas com camadas de cascalho e terra fértil, que aproveitavam a umidade da água e dos nutrientes para produzir feijão, milho, flores e outros vegetais. Os astecas desenvolveram técnicas de ancoragem para as chinampas, como a plantação de um determinado tipo de árvore conhecido como ahuejotes, nos quais se fixavam os hortos. Hoje em dia, Xochimilco, na Cidade do México, é o único lugar onde se pode apreciar esta engenhosa estrutura, que virou um ponto turístico famoso por sua produção de flores.

Parque Nacional IGUAÇU Brasil-Argentina
Os territórios do Brasil e da Argentina abrigam uma área protegida de mais de 2000 km². O rio Iguaçu, que em guarani significa “água grande”, nasce na Serra do Mar a uma altitude de 1.300 metros e, de fato, trata-se de um enorme sistema fluvial. Corre para o oeste ao longo de mais de 500 quilômetros, desembocando no Paraná, a apenas 90 metros acima do nível do mar. Antes de formar as famosas Cataratas do Iguaçu, forma vários saltos em seu curso superior, alternados com amplos e profundos trechos de águas calmas em que a impetuosa corrente parece contida. O Parque é um dos ecossistemas
mais ricos do mundo pela biodiversidade que abriga: mais de 2000 espécies de plantas, 400 de aves e importante fauna em perigo de extinção. Hoje, o Parque Nacional do Iguaçu é um destino turístico de categoria mundial.