AQUAVITAE

EDIÇÕES COMPLETAS « voltar

TEMAS PRINCIPAIS

SEGURANÇA ALIMENTÍCIA, IRRIGAÇÃO EFICIENTE

SEGURANÇA ALIMENTÍCIA, IRRIGAÇÃO EFICIENTE

Autoridades mundiais prevêem que as atuais condições climáticas e o stress hídrico afetem a agricultura e se tornem mais um elemento a ser enfrentado diante da crise alimentícia. É necessário que haja melhores práticas de irrigação.

por Boris Ramírez

Foto: David Ruiz

Os líderes mundiais estão focados em buscar melhores práticas na agricultura que vinculem o uso eficiente e racional da água como recurso fundamental para a produção de alimentos, tema que deve estourar na agenda de prioridades.

Os números são mais que eloqüentes! A agricultura consome, segundo dados da ONU, 70% dos recursos hídricos mundiais, o que evidencia a importância da água na produção mundial de alimentos. 

Reunidos em julho de 2009, na cidade de L’Aquila (Itália), líderes dos oito países mais industrializados do mundo, o chamado G8 - formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia -, fizeram um chamado mundial para mitigar os efeitos de uma crise alimentícia de graves proporções que, de acordo com dados do Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), afeta mais de 1 bilhão de pessoas, dentre as quais 50 milhões são latino-americanos.

Na declaração do G8 fica evidente o papel que é preciso ser assumido para se alcançar uma agricultura sustentável, aonde a irrigação eficiente vem a ser uma das principais vias. Suas palavras são claras e precisas: “Existe uma necessidade urgente de uma ação decisiva para tirar a Humanidade da fome e da pobreza (…). Ações eficazes de segurança alimentícia devem vir acompanhadas de medidas de adaptação e diminuição em relação à mudança climática, a gestão sustentável da água, da terra, do solo e de outros recursos naturais, incluindo a proteção da biodiversidade.”

Conforme o diretor da FAO, Jacques Diouf, durante a abertura da Conferência Ministerial do V Fórum Mundial da Água, “o futuro da água encontra-se em uma agricultura mais eficiente”, ao destacar que “milhares de camponeses de todo o mundo proporcionam os alimentos e devem ser o eixo de qualquer processo de mudança. Necessitam ser apoiados e guiados, para produzir mais com menos água. Isso requer investimentos bem direcionados, incentivos e um marco político adequado para sistemas de produção, irrigação e diminuição diante da mudança climática". Desta forma, o tema da irrigação cobra importância nas discussões e decisões no âmbito político.

IRRIGAÇÃO E IMPACTO NO RECURSO HÍDRICO

Um sistema de irrigação é formado pelo conjunto organizado de obras e artefatos, cujo funcionamento, ordenadamente estruturado, permite completar as necessidades de água dos cultivos e aportar uma quantidade adicional à água da chuva.

A administração da água na agricultura enfrenta pressões de duas direções. Desde a demanda, onde deve enfrentar processos de industrialização, urbanização e mudanças alimentícias que aumentarão a demanda de alimentos e da água utilizada na irrigação para a produção. E desde a oferta, onde a possibilidade de um maior acesso à água para irrigação é cada vez mais limitada.

“Durante as últimas quatro décadas, a zona mundial de terra irrigada dobrou. Junto com os aumentos de produtividade, a expansão da fronteira da irrigação permitiu que a agricultura alimentasse uma quantidade de gente cada vez maior. A produção de cultivos, que em sua maioria necessita de irrigação como arroz e trigo, aumentou de duas para quatro vezes, com mais de dois terços dos benefícios derivados dos aumentos de rendimento. Estes grandes aumentos de produtividade foram um fator chave para obtenção de melhorias na segurança alimentícia e na redução da fome mundial. Sem a expansão das áreas irrigadas, o panorama da pobreza rural bem como a segurança alimentícia do planeta seriam, hoje, muito diferentes”, indica o Informe Sobre Desenvolvimento Humano, de 2006.


O uso eficiente de 1% de água por dia, traria uma economia de 200 mil litros por hectare cultivado. Foto: Carmen Abdo

‘‘Sem dúvida, a irrigação é um fator vital, já que está diretamente associada à produção de alimentos de primeira ordem; é um fator da economia dos países, mas não existe nenhuma regulamentação ou marco legal que a leve em conta.‘‘

Mas o mesmo informe adverte que, enquanto as pressões exercidas pela indústria e os usos domésticos continuam aumentando, as novas fontes de água para irrigação resultaram mais custosas e sua exploração deverá implicar um dano ecológico maior. No entanto, durante as próximas quatro décadas, a agricultura em muitos países em desenvolvimento 
deverá competir pela água das bacias hidrográficas, cuja exploração excessiva já apresenta como resultado o fechamento definitivo (ou quase) de algumas delas, já que o uso hídrico supera os níveis de reabastecimento. Recentes exercícios sobre o uso da água, gerados pelo Instituto Internacional de Pesquisas sobre Política Alimentícia e pelo Instituto Internacional para Administração da Água, deram como resultado os seguintes cenários: a população mundial deverá aumentar num ritmo de 80 milhões de pessoas por ano, durante as próximas três décadas, e deverá alcançar a cifra de 9 bilhões em 2050; as extrações
de água projetadas nos países em desenvolvimento será 27% maior em 2035, em comparação com 1995; a quantidade de
água destinada a diferentes usos da irrigação, tais como indústria, centros urbanos e pecuária deverá duplicar, enquanto
que o consumo de água de irrigação deverá aumentar apenas 4%; e por último, a demanda alimentar deverá exigir uma
irrigação intensiva devido à explosão demográfica, motivo pelo qual será imperativo incrementar a produtividade agrícola.

EFICIÊNCIA PARA APROVEITAR A ÁGUA

Em 2005, surgiu, como resultado de uma reunião mundial de especialistas, realizada na Holanda, o documento “Água para os alimentos e os ecossistemas”, do qual foram tirados informações sobre a eficiência da água para a irrigação e incidências no desenvolvimento e aumento na produção.

- Dois a três litros de água são suficientes para que uma pessoa possa beber, frente aos 3 mil litros necessários para produção de alimento que é consumido em um dia.

- O uso eficiente de 1% de água por dia, economizaria 200 mil litros por hectare cultivado.

- Os países em desenvolvimento – dentre eles a América Latina – deverão aumentar sua superfície de irrigação, passando
de 202 milhões de litros por hectare para 242 milhões, em 2030. 

A Aqua Vitae esteve presente na sessão de trabalho “Água para Alimentos para acabar com a pobreza e a fome”, realizada em Istambul, em março passado. Aí, o presidente da Comissão Internacional de Irrigação e Drenagens, Chandra Madramootoo, afirmou que “a irrigação e a drenagem poderão reduzir a pobreza e a fome, contribuir com a segurança energética e estimular o desenvolvimento rural, mediante o estabelecimento de novas oportunidades e cadeias de valores acrescidas”.

Para isso, Madramootoo insistiu na aposta pela modernização dos sistemas de irrigação, os quais não apenas devem contemplar medidas corretivas para melhorar a eficácia de suas prestações no âmbito hidráulico, como também adaptar-se às inovações técnicas, tanto nas estruturas físicas como em programas informáticos.

Existem cinco métodos de irrigação: submersão, aspersão, gota-a-gota, infiltração e escorrimento. Na hora de escolher um destes sistemas, os especialistas afirmam que é preciso levar em conta critérios técnicos e econômicos, bem como fatores
humanos, entre os quais cabe destacar a topografia, as características físicas do solo, o tipo de cultivo, a disponibilidade
de água, a qualidade da água de irrigação, o custo da instalação, a disposição de mão de obra e o efeito sobre o meio
ambiente. Os sistemas de gota-a-gota e submersão resultam mais eficientes, enquanto que os de aspersão e infiltração
geram um alto consumo de água e salinização de terras, o que ocasiona danos ao meio ambiente.

Sem dúvida a irrigação é um fator vital, já que está diretamente associada à produção de alimentos de primeira ordem; é
um fator econômico dos países, mas não existe nenhuma relação ou marco legal que a leve em conta.

Neste sentido, a Associação Internacional de Irrigação vê com bons olhos uma lei estabelecida nos Estados Unidos, pelo senador democrata Bart Gordon, em torno à pesquisa, ao desenvolvimento e difusão de boas práticas em relação ao uso da
água. "Esta legislação é um passo definitivo em direção à correta coordenação dos recursos federais, que assegura à nossa
nação direções responsáveis nas pesquisas hídricas", afirmou o Diretor de Assuntos Federais da Associação Internacional de Irrigação, John Farner, ao sustentar que a legislação continuará sendo supervisionada para promover pesquisas que  eneficiem a eficiência da irrigação.

IRRIGAÇÃO NA AMÉRICA LATINA

Durante 2009, a América Latina enfrentou obstáculos na produção de alimentos e na agricultura por conta dos efeitos do
fenômeno El Niño, resultando em: declaração pública de escassez generalizada de alimentos, na Guatemala, afetando 54
mil famílias; fortes secas em vários países da América Central; inundações no México e na Argentina; e temperaturas de
40°C no Peru e no Equador.

No início dos anos 2000, a Aquasat – Sistema de Informação da FAO sobre o Uso da Água na Agricultura e no Meio Rural –
realizou um estudo sobre irrigação na região latino-americana, que determinou informações gerais sobre o tema, com base em dados disponíveis em 32 países. Estimou-se que a AL tem 77,8 milhões de hectares sob sistemas de irrigação, dos
quais 66% estão localizados em apenas quatro países: Argentina, Brasil, México e Peru. O estudo destacou também o baixo
potencial para incrementar a irrigação em relação à superfície total de países com alta produção agrícola como Argentina,
Bolívia, El Salvador, Venezuela, Costa Rica e Panamá.

A avaliação da superfície sob sistemas de irrigação nos diferentes países da região é algo complexo, devido às diferentes formas de contabilizar tais superfícies. Em alguns casos (Antilhas Menores, Bolívia, República Dominicana, Suriname ou Uruguai) o dado corresponde à superfície irrigada em um determinado ano. No caso da Argentina e do Chile, foi feita uma distinção sobre a base do caráter permanente ou eventual da concessão ou direito de água; embora toda a superfície disponha de infra-estrutura para realizar a irrigação, a superfície regada varia segundo a disponibilidade de água. Em outros
países da AL, as terras para cultivos agrícolas estão em terrenos áridos, ou seja, aqueles em que não se usa irrigação artificial, mas sim água da chuva.

A tecnologia desenvolve, cada vez mais, opções melhores para os sistemas de irrigação

IRRIGAÇÃO POR ASPERSÃO: Método que simula a chuva. Utiliza aspersões conectadas a tubulação localizada em cima do
cultivo ou debaixo das folhagens, obtendo um alcance de 6 até 80 metros quadrados, dependendo da pressão e do leito
disponível. Útil para cultivos como banana, cana de açúcar, cereais, pastos, palmeiras, abacaxi e hortaliças.

IRRIGAÇÃO POR COMPORTAS: Método superficial que conduz água por meio de canais ou tubulações de diâmetros maiores
até tubulações de comportas localizadas em terrenos onde se aplica a água com leitos controlados. É utilizada em cultivos
de fileiras, como cana de açúcar, cereais e hortaliças.

IRRIGAÇÃO GOTA-A-GOTA: Permite aplicar água em forma de gotas na zona radicular, minimizando perdas por evaporação
e percolação. Pode ser utilizada em uma gama ampla de cultivos, incluindo hortaliças, tomate, melão, melancia, cítricos,
frutas, abacaxi e aspargos.

IRRIGAÇÃO POR MICROASPERSÃO: Método localizado, mediante o qual a aplicação da água se faz em forma de chuva
em círculos de poucos diâmetros em torno da planta. É utilizada para cítricos, árvores frutíferas, manga, banana, mamão
e algumas hortaliças.

IRRIGAÇÃO MECANIZADA: É formada por máquinas que se deslocam no campo para a aplicação da água nos cultivos.

Fonte: www.amanco.com

‘‘O futuro da água está em uma agricultura mais eficiente‘‘
Jacques Diouf, diretor da FAO

Os recursos hídricos superficiais são a principal fonte de abastecimento de água da irrigação, com exceção da Nicarágua e de
Cuba, onde as águas subterrâneas fornecem 77% e 50% da superfície irrigada, respectivamente.

“O maior problema ambiental e econômico associado à irrigação na América Latina é seu uso ineficiente, a falta de drenagens adequadas e a má administração, fatores que, entre outros, colocam as terras em processo acelerado de salinização”, concluiu
Paolo Bifani, em seu livro “Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável”.

O pesquisador argumenta que a relação entre irrigação e alimentação é indissolúvel. É por isso que o Observatório da Fome na
América Latina e no Caribe, com sede no Chile, demanda especial atenção ao investimento na agricultura e ao complexo contexto de crise econômica e alimentícia. “A produção de grãos na América Latina e no Caribe foi muito heterogênea (em 2008). Enquanto que no Brasil a produção de cereais aumentou 14%, na Argentina caiu na mesma proporção como resultado da seca. A Colômbia apresentou aumento importante em sua produção agrícola, mas a América Central em geral cresceu 1,5%. As previsões das colheitas para 2009 não são alentadoras nos dois grandes produtores da região: Brasil e Argentina.”

As oscilações na produção têm relação direta com os preços. Segundo o Observatório: “as seqüelas da crise alimentícia continuam sendo observadas nos incrementos dos preços dos alimentos básicos. Em 2008, Brasil, Peru, Colômbia e Bolívia registraram aumentos em torno de um terço para o arroz e o pão”. É por isso que o foco deve estar no investimento, orientando-os para que o setor agrícola gere boas práticas e melhores rendimentos que ajudem a minimizar a crise alimentícia. Neste sentido, a FAO afirma que vários países da região canalizam recursos do sistema financeiro para expandir ou favorecer o acesso ao crédito de agricultores na Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Costa Rica, Jamaica, México, Nicarágua e Peru.

A necessidade de melhorar as condições para se atenuar a gravidade da crise atual é o resultado de 20 anos de investimentos insuficientes e abandono no setor agrícola. Isso é parte da grande discussão que se desenrolará ainda neste mês, durante a Cúpula Mundial Alimentícia, a ser realizada em Roma (Itália), com três fatores prioritários: como alimentar 9 bilhões de pessoas? Como fazer com que a agricultura se torne sustentável? E como fomentar melhores práticas nos elementos fundamentais agrários: terra e água?