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AMBIENTE

DESERTIFICAÇÃO: INIMIGO SILENCIOSO DO PLANETA

DESERTIFICAÇÃO: INIMIGO SILENCIOSO DO PLANETA

Cerca de um quarto da superfície da América Latina e do Caribe é formada por áreas sujeitas a se tornarem deserto. Por Pilar Cereceda, Diretora do Centro Deserto do Atacama (Chile).

Por PILAR CERECEDA
Diretora do Centro Deserto do Atacama Pontifícia Universidade Católica do Chile
dcereced@vtr.net

O planeta Terra tem uma vida similar à dos seres humanos:ambos vivem sob constantes ameaças, algumas
violentas como os terremotos e outras que vão crescendo paulatinamente, até manifestarem sua periculosidade. Entre elas, estão a mudança climática global, a perda de biodiversidade e a desertifi cação. Todas começam de maneira silenciosa e “sorrateira”, até se tornarem um problema. Por isso, as Nações Unidas concentram seus esforços na proteção do meio ambiente realizando três convenções para cada tema, os quais, por sua vez, estão inter-relacionados entre si. A maioria dos países pertence à Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), e cada um é representado por um “ponto focal” localizado em uma região do mundo, como é o caso da América Latina e do Caribe.

A UNCCD defi ne a desertifi cação como sendo um processo de “degradação das terras de zonas áridas, semiáridas, ubúmidas e secas, resultante de diversos fatores tais como as variações climáticas e as atividades humanas”. A degradação das terras é defi nida como sendo a redução ou perda de produtividade biológica ou econômica dos solos. Desta forma, a proteção dos solos é o início da conservação das paisagens.

As regiões áridas e semiáridas representam 40% da superfície da Terra e abrangem um terço da população. Tais regiões são definidas pelo balanço hidrológico negativo entre o input de precipitação e o output de evaporação e “evapotranspiração” (ou seja, menor entrada de água no subsolo em relação a quantidade que evapora). A desertifi cação e/ou o avanço dos desertos estão ligados à presença hídrica. Esta relação pode ser por excesso, gerando erosão, ou por escassez, que, neste caso, gera deterioramento e mortandade de plantas e animais.

Salvo a Antártica, todos os continentes têm desertos e semidesertos. Quando a população mais pobre se assenta nos desertos, as condições e qualidade de vida podem ser muito ruins devido à escassez de água limpa. Em mais de cem países, 1 bilhão de pessoas encontram-se em situação de risco, incluindo a grande parte dos cidadãos mais pobres e marginalizados do mundo, segundo dados da UNCCD. E o fato é que grandes recursos econômicos da mineração, como o petróleo no Oriente Médio ou o cobre na América do Sul, estão localizados nestes tipos de clima e o contraste entre a riqueza e a pobreza é cruel.

BUSCANDO RESPONSÁVEIS

Comprovadamente, os climas variam: têm ciclos de frio e de calor; chuvas e estiagem. Portanto, a natureza tem sua cota de responsabilidade no que tange à desertifi cação. Quando o ser humano intervém na paisagem, tais ações podem se tornar desencadeadores dos processos de deterioramento ambiental.

As formações vegetais endêmicas e/ou nativas de um lugar são as grandes protetoras dos ecossistemas, já que estão adaptadas às condições geográfi cas de onde se desenvolvem. O desfl orestamento indiscriminado das fl orestas nativas e o corte de madeira ou a colheita de ervas medicinais são agentes de desertificação. A generalização destas práticas nos países em desenvolvimento é grave. Não apenas signifi cam uma perda do hábitat para muitas espécies de fauna e fl ora, como também sua conservação fica em risco ao deixar os solos desnudos, e, consequentemente, suscetíveis à erosão e degradação.

Nos países que passam vários meses por ano com escassez de chuva, os incêndios são recorrentes. Os ecossistemas são vulneráveis a estes eventos, fazendo com que a vegetação desapareça, já que os solos fi cam expostos à erosão por conta da chuva e do vento, acarretando a perda de sua produtividade biológica. O avanço das cidades em terrenos agrícolas ou de vegetação nativa, também signifi ca perda de hábitat das espécies. 

A extração mineral em regiões áridas é grande consumidora de águas subterrâneas, já que os rios fi cam secos por conta da atividade extrativista. O problema todo está no fato de não haver abastecimento dos lençóis freáticos por precipitações, degelos ou cursos de água superfi cial. Este fenômeno afeta os poucos terrenos úmidos e campos de cultivo existentes. Na região cuprifera do deserto do Atacama chove, em média, 1 mm/ano, ou seja, cada metro quadrado de terreno recebe apenas um litro de água por ano. 

A mineração e a indústria de porte afetam as plantações agrícolas e a pecuária das comunidades locais, que acabam optando pelo êxodo rural por não poderem dar de beber a seus animais ou irrigarem suas plantações. Elas abandonam suas terras, deixando-as à mercê dos processos de desertifi cação. A pobreza rural e a atração pelas zonas urbanas incentivam a migração campo-cidade, que faz parte da cadeia de degradação das terras.

 

"A degradação do solo devasta 12 milhões de hectares todos os anos. Cerca de um quarto da superfície da América Latina e do caribe é formada por áreas suscetíveis a desertificação(20,5 milhões KM2) Luc Gnacadja, Secretário Executivo da UNCCD, Junho/2010"

 

"Na região cuprifera do deserto do atacama chove, em média, 1mm/ano, ou seja, cada metro quadrado de terreno recebe apenas um litro de áqua por ano"

 

SITUAÇÃO NA AMÉRICA LATINA

Em junho de 2010, Luc Gnacadja, Secretário Executivo da UNCCD, afirmou que a degradação do solo devasta 12 milhões de hectares todos os anos. “Cerca de um quarto da superfície da América Latina e do Caribe é formada por áreas suscetíveis à desertificação (20,5 milhões km2). A maioria da população que vive em áreas de desertificação é pobre. A pobreza e a pressão sobre os recursos naturais causam degradação das terras. Com cerca de 550 milhões de habitantes, a região conta com aproximadamente 220 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, muitas das quais em áreas de desertificação”.

Na América do Sul, um deserto se estende desde a costa do Pacífico (ao sul do Equador), passando pela costa peruana, até o norte do Chile. No interior do continente, entre 3.000 e 4.500 metros de altitude, o Altiplano andino compreende a parte ocidental da Bolívia, o norte do Chile, o sul do Peru e o noroeste da Argentina.

No nordeste do Brasil existem áreas semiáridas, dominadas pela faixa tropical. Regiões da Colômbia e da Venezuela estão fortemente degradadas. Na América Central existem regiões áridas, assim como na República Dominicana, Cuba, Haiti e Jamaica. A maior parte do México é árida e semiárida, especialmente o norte do país. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), com a colaboração da Agência Alemã de Cooperação (GTZ), desenvolve o projeto “Indicadores Sócio-econômicos da Desertificação para Argentina, Brasil e Chile”, cujo propósito é identificar causas e consequências
da desertificação e degradação, a fim de tomar decisões e estabelecer estratégias à respeito. Antes, porém, o grupo trabalhou
na definição de indicadores ambientais de desertificação, para aplicação dos mesmos no estudo do continente americano.

O FUTURO... PROMISSOR OU NÃO?

Apesar do péssimo prognóstico sobre a desertificação, é possível afirmar que existem avanços nas medidas adotadas para paliar seus efeitos e prevenir os processos que a desencadeiam.

O planeta tem-se organizado e há consciência do perigo eminente. Autoridades como a ONU e o Banco Mundial criam programas e buscam financiamento. No âmbito regional, cada país tem sua própria organização relacionada e autoridades, bem como ministérios, que trabalham em cima dos temas que lhes compitam. Universidades e centros de pesquisas estudam os agentes de degradação e cada uma das possíveis consequências para a natureza e a população. “Pesquisa mais Inovação” são vitais. Um exemplo disso são as “atrapanieblas”, que abastecem de água os desertos e as comunidades que as empregam para uso doméstico e para irrigação.

As organizações governamentais e as ONGs dedicadas ao tema são inúmeras e com enfoques variados. Tais entidades chegam às comunidades, estabelecem um diagnóstico, as monitoram e, de acordo com a tendência existente, buscam as fórmulas para combater o flagelo que as assola. Segundo Gnacadja, os meios de comunicação não dão a devida importância para a recuperação de terras e não consideram o tema como notícia.

Para atrair financiamento é preciso levar o assunto “desertificação” aos meios de comunicação e, para tal, é preciso torná-lo
tão dramático quanto se tornou a mudança climática global. De qualquer forma, as consequências de ambos são praticamente
as mesmas!


Deserto do Atacama.

AVANÇO SORRATEIRO


Fonte: Avaliação dos Ecossistemas do Milênio