TEMAS PRINCIPAIS
COSMOLOGIA MAIA DA ÁGUA
A civilização Maia, que durou 3 mil anos, continua surpreendendo o mundo com a sofi sticação e amplitude de seus conhecimentos, no qual a água desempenha papel primordial, baseando-se em três relações fundamentais: com o Ser Supremo, com a Mãe Natureza e com nossos semelhantes. A Gestão Integrada de Recursos Hídricos (GIRH), segundo a perspectiva maia, tenta relacionar uma profunda análise de nosso interior com o “todo”.
Mural de Diego Rivera. * imagens meramente ilustrativas sem valor verídico. foto: Carmen Abdo
COSMOLOGIA MAIA DA ÁGUA
UMA CONTRIBUIÇÃO PARA OS DESAFIOS ATUAIS
A CIVILIZAÇÃO MAIA, QUE DUROU 3 MIL ANOS, CONTINUA SURPREENDENDO O MUNDO COM A SOFISTICAÇÃO E AMPLITUDE DE SEUS CONHECIMENTOS. ELES DOMINARAM TERRAS AO SUL DO MÉXICO, DA GUATEMALA, BELIZE, HONDURAS E EL SALVADOR, E DESENVOLVERAM UMA CULTURA EM TORNO À NATUREZA, ASTRONOMIA, ARQUITETURA, MATEMÁTICA E LITERATURA. A COSMOLOGIA MAIA, NA QUAL A ÁGUA DESEMPENHA UM PAPEL PRIMORDIAL, BASEIA-SE EM TRÊS RELAÇÕES FUNDAMENTAIS: COM O SER SUPREMO, COM A MÃE NATUREZA E COM NOSSOS SEMELHANTES. A AQUA VITAE APRESENTA UM RESUMO DE UM INFORME DA GLOBAL WATER PARTNERSHIP (GWP), A FIM DE REFORÇAR OS IDEAIS MULTISETORIAIS E MULTIDISCIPLINARES DA GESTÃO INTEGRADA DOS RECURSOS HÍDRICOS. DESTA FORMA, NOS UNIMOS À VOZ DO POVO MAIA E ÀS MUITAS OUTRAS QUE PARTICIPAM DO CONSTANTE DIÁLOGO EM TORNO À GESTÃO HÍDRICA.
UMA GESTÃO COM VALORES ANCESTRAIS
A GESTÃO INTEGRADA DOS RECURSOS HÍDRICOS (GIRH), SEGUNDO A PERSPECTIVA MAIA, TENTA RELACIONAR UMA PROFUNDA
ANÁLISE DE NOSSO INTERIOR COM O “TODO”, DO MENOR AO MAIOR, DO INFINITO AO PARTICULAR, ATÉ ALCANÇAR UM PROCESSO COMUM E HARMÔNICO CAPAZ DE CURAR A MÃE TERRA E OBTER UM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL.
Popol Vuh – um dos poucos livros que restaram da civilização maia sobre suas lendas – afi rma ser a água fonte de origem do universo e a alma da terra.
“Não se manifestava a face da terra. havia apenas o mar calmo e o céu em sua totalidade.”
“Não havia nada que estivesse de pé. só havia a água em repouso, o mar manso, sozinho e tranquilo. não havia nada dotado de existência.”
“Os progenitores estavam na água, rodeados de claridade. estavam escondidos sob as plumas verdes e azuis, por isso foram
chamados Gucumatz.”
“Como a névoa, como uma nuvem de poeira foram criadas quando surgiram da água as montanhas, naquele mesmo instante cresceram, então, as montanhas.”
“As correntes de água se dividiram, os rios começaram a correr livremente para os vales e as águas se separaram quando as montanhas altas apareceram.”
Além da importância da água no mito maia da criação, culturalmente, assume-se a água como símbolo de vida, decisiva para se chegar à infi nidade de ovas colocadas pelos peixes. um exemplo disto está no sistema matemático e numérico zoomorfo maia, onde o caracol simboliza o zero, indicando que a origem da vida surge da água.
A água aparece nas escrituras maias como mola propulsora criadora da vida, como elemento constitutivo de todos os seres vivos e como dinâmica da fertilidade feminina. ela também é a trama que relaciona a medicina, os alimentos, a espiritualidade, a mitologia, a economia, as relações sociais e as festividades do povo maia.

GESTÃO INTEGRAL DO RECURSO HÍDRICO A PARTIR DA COSMOVISÃO ANCESTRAL
Uma verdadeira gestão integrada dos recursos hídricos com a inclusão do pensamento indígena poderia ajudar a mitigar a
superfi cialidade e a discriminação em prol do cultivo de novas mentalidades, capazes de unir todos os demais, como afi rma a tradição maia: “não é possível pensar pelos outros, e tampouco sem os outros”.
Assegurar a gestão integrada dos recursos hídricos sob uma ótica pluricultural permitiria, além da satisfação da experiência histórica conjunta, cristalizar a relação entre os povos, promover trocas mútuas de orgulho e dignidade e endossar a edifi cação de uma comunidade nacional, com base na cooperação, na paz e na democracia.
É chegada a hora de administrar de maneira integrada os recursos hídricos, exteriorizando conjuntamente nossas preocupações e problemas coletivos, edifi cando sobre os patamares de uma experiência complexa, que há de nos mostrar o melhor modo para melhorar nossas relações com a água, não apenas do ponto de vista material como também com a profundidade do propósito espiritual do universo.
Devemos tirar proveito desta oportunidade inigualável de diálogo permanente com a água e a natureza para crescermos individualmente e fomentarmos melhores relações e uma maior compreensão entre nossos povos, o que nos permitirá resolver nossos confl itos sem recorrer à violência.
Será praticamente impossível igualar os direitos e oportunidades entre as mulheres e os homens da Guatemala sem respeito à diversidade histórica e cultural, a qual requer uma nova mentalidade na gestão integral dos recursos hídricos em nosso país. A gestão hídrica constitui uma imensa oportunidade de participação dos cidadãos no exercício da democracia, com o objetivo de assumir compromissos comuns entre os quatro povos que formam nossa nação e entre a sociedade em sua totalidade e o estado.
GESTÃO HÍDRICA LOCAL
O desenvolvimento conceitual terra-água-universo-humanidade é inseparável, segundo os povos indígenas. para eles, o equilíbrio nesta relação, onde o todo e as partes se confluem, é vital para a existência do ser humano.
A busca permanente do equilíbrio entre o coletivo e o individual, repetida em cada geração, sempre nos impreguina das leis cósmicas. e cada qual as reproduz em sua vida cotidiana até alcançar a capacidade comunitária de preservar e promover a coesão cultural e grupal, sempre conservando uma continuidade com a profunda memória coletiva.
E assim como o conceito da gestão hídrica em qualquer comunidade, não é possível se restringir à soma de certos elementos
do processo técnico administrativo, tomados fora de contexto. Ao contrário, a gestão hídrica constitui o elo global de nossas vidas e da vida da Mãe terra.
(*) O estudo “O fenômeno da pluriculturalidade e gestão hídrica integrada no contexto da modernidade pluricultural da Guatemala” pode ser lido na íntegra no site: www.gwpcentroamerica.org os autores são: engª. Amalia racancoj - Associação pro Agua del pueblo; engº. felipe Marcos - centro de Ação legal Ambiental e social da Guatemala; lic. olivia orellana - Ministério do Meio Ambiente e dos recursos naturais; lic. Juan diego González - faculdade latino-Americana de ciências sociais; engº. leonel herrera perera - fundação de defesa do Meio Ambiente de Baja verapaz; Arq. Jaime Alfredo orozco - comunidades Associadas pela água, Meio Ambiente, desenvolvimento integral e infraestrutura na Bacia hidrográfi ca do rio naranjo; engº. rubén pérez - project concern international; lic. daniel Matul, lic. Jeanette de noack e lic. estuardo Barreno.
Os mais velhos dizem que o universo, em suas diferentes manifestações cíclicas, é o acento e o ponto de partida de todas as nossas ações. é por isso que a Gestão hídrica, para o contexto nacional, só será bem sucedida se os povos indígenas cooperarem através do exercício de nossa memória coletiva.
Nossas formas de gestão não se confl itam em nada com as contribuições positivas provenientes do pensamento administrativo ocidental. se bem que a confl uência de ambas poderia constituir a solução para evitar a sede em nosso país e no planeta.
De nossa parte, estamos ampliando um novo conceito administrativo-contextual que contempla o exercício da convivência
equilibrada, a vida plena criadora de alegrias coletivas, a observação da lógica do terceiro incluído (unidade-diversidade-
-complementariedade), a vida como síntese de cooperação em todas as suas manifestações, a natureza como fonte de vida, o trabalho individual-coletivo e a fecunda relação espiritualidade- -natureza como expressão indivisível da unidade espírito-matéria (conceito de hunab Kú) como grande matriz germinadora da trama cósmica.
No interior dos comitês – juntas locais organizadas e autorizadas a gerar o benefício coletivo – é desenvolvido todo um sistema de administração hídrica comunitária, que após 20 ou 30 anos subsistem como exemplos claros de gestão efi caz e efi ciente na comunidade e para a comunidade. A gestão implica em obter a propriedade da fonte do recurso, bem como os direitos de concessão, o aporte de jornais e cotas para o fi nanciamento e a negociação de materiais, equipamentos e outros.
SOB OUTRAS PERSPECTIVAS
Enviamos o extrato dos trabalhos sobre cosmologia maia e aplicação de Gestão integrada dos recursos hídricos (Girh) para um
grupo de personalidades do setor hídrico e de saneamento de vários países, a fim de saber suas opiniões sobre esta abordagem. Estes foram os comentários que recebemos.
VICTOR POCHAT. Argentina. Consultor regional responsável pelo programa hidrológico internacional da unesco para América latina e caribe. na cosmologia Maia é particularmente marcante para mim a consideração da água como origem do universo e da alma da terra. se essa consideração é compartilhada ou não à luz de outras crenças mais difundidas hoje, o interessante é comparar a importância relativa de nosso senso comum sobre a água como “recurso vital” com essa concepção que dá à água um papel fundamental e transcendental como fonte do universo e sopro de vida na terra. A noção de diferentes povos indígenas quanto a conjugar organicamente humanidade com natureza é chave para compreender as inter-relações que a água – um recurso natural em movimento – cria o fluxo de e para todos os outros recursos naturais e seres vivos, estabelecendo uma interdependência entre povos que compartilham deste recurso.
JORGE FAUSTINO. Peru. Líder do programa Gestão territorial de recursos hídricos e Biodiversidade (Gester). Os Maias foram
um dos primeiros a vincular os conceitos de abordagem ecossistêmica com a interação de quatro elementos (terra, fogo, ar
e água) ligados ao ciclo da vida. As nascentes foram altamente valorizadas pelos Maias, fl orestas e montanhas eram lugares
sagrados, já que a água depende deles. os Maias tinham um claro entendimento do ciclo hidrológico e do equilíbrio fundamental entre a utilização e proteção da água, dando valor ambiental (devido ao ciclo da água), social (para a vida religiosa) e econômico (com a utilização racional). e é muito importante aplicar estes princípios antigos em uma gestão integrada dos recursos hídricos, para formar uma cultura hídrica mais inclusiva. O equilíbrio é fundamental, portanto a demanda e a oferta atual e futura deverão ser a base da gestão. o conceito de lugar sagrado mudou-se para o contexto atual, teríamos de definir as áreas de reposição hídrica e dos lençóis freáticos ou as zonas produtoras de água, zonas de descarga de água superficial e subterrânea. uma bacia hidrográfi ca bem gerida e com água em equilíbrio será aquela que mantiver uma cobertura vegetal adequada e cujo solo também seja bem gerido, de maneira a facilitar o movimento superfi cial e subterrâneo da água.
SANTIAGO VELEZ. Equador. Especialista em Agronegócios. A cosmologia maia baseava-se na compreensão “do sobrenatural
na simplicidade”. Algo que consideramos tão comum como a água, constitui uma ponte entre relações sócio-culturais-teológicas, eco-ambientais, produtivas e até político-institucionais.
UMA APLICAÇÃO ATUAL
hídricos que atuam na Guatemala se resumem da seguinte • velar pelo uso racional da água;
da comunidade;
bom funcionamento e a detecção de danos no sistema • administração eficiente do sistema;
quando os membros da comunidade não podem do sistema; e
