ALTO PERFIL
10 ANOS DE UM PROJETO QUE UNE ÁGUA E NATUREZA
“OS RIOS SÃO UMA FORMA NATURAL DE INTEGRAÇÃO”
Seu olhar profundo. Sua voz educada. Seus dedos acostumados a formar acordes em instrumentos musicais. Tudo isso se conjuga em um ser humano que espera deixar um legado e que vem navegando por barcos de entusiasmo e de acordes, com
o desejo de envolver outras pessoas na proteção dos recursos hídricos, combinando música, água, abordagens e compromisso ambiental ao ritmo da “Orquesta del Río Infinito”.
Manuel Obregón criou a idéia, empolgou músicos de toda a região, organizou as viagens e hoje, 10 anos depois, faz com que a música soe como a água… que a água vibre entre notas… que as pessoas se reconheçam em seus rios.
“Este projeto não trata apenas de água e natureza, é também um espaço para conhecer e se conscientizar sobre outros assuntos sociais importantes para as comunidades que querem ser escutadas,” afi rmou Obregón.

Manuel Obregón, fundador da “Orquesta del Río In nito”, reconhece que é preciso continuar percorrendo os rios da América, pois esta experiência nos ensina e sensibiliza sobre os desa os de nossa região em relação à água.
O projeto “Orquesta del Río Infinito” se define como um movimento artístico-ambiental pan-americano, que envolve um
reencontro entre a música e as águas desta região. Quais as conquistas ao longo destes anos capazes de sensibilizar em relação à proteção dos rios por meio da música?
A “Orquesta del Río Infi nito” começou como um movimento de pesquisa musical, mas no decorrer do tempo, percebemos que viajar pelos rios de nossa América era a melhor forma de recuperar a música de nossa região.
Viajando por estas bacias hidrográfi cas – sobre tudo as da América do Sul –, pelos rios Paraná, Uruguai e Amazonas, vimos que muitas pessoas tinham muito para contar e, assim, foi-se vinculando arte e natureza. Neste processo, pessoas,
comunidades e organizações se uniram a nós.
Pelo caminho, percebemos a força do vínculo entre água e natureza: inseparáveis. Com os anos, esse vínculo com a água também nos foi trazendo uma maneira natural e fortalecendo a “Orquesta del Río Infinito”.
Vocês fizeram duas turnês: uma no Rio San Juan (Costa Rica e Nicarágua), e outra no Rio Paraná (Argentina, Uruguai e Paraguai). Quais os desafi os enfrentados para recuperar os rios como principais fontes de abastecimento hídrico em nossa região?
Foram duas turnês completas. Mas neste meio tempo houve outras atividades. O movimento tem mais de 10 anos e conseguimos identificar mais de 1500 músicos, além de atores e outros vínculos sociais. O ponto mais interessante não é a turnê em si, mas a pré-produção, que se trata de um período onde documentamos tudo, gravamos as canções e entramos
em contato com as comunidades.
Por aí percebemos que os maiores problemas são o desmatamento e a consequente sedimentação dos rios, o que difi culta a navegação e deteriora a qualidade da água. Concluímos que, com o desaparecimento da natureza, desaparece também a cultura.

Fotos: Garrett Britton
O Jornal El País, da Espanha, destaca o projeto por sua capacidade integradora única. Será que nossos governos estão se descuidando ou deixando de lado um tema tão vital como a água?
A integração é um assunto muito interessante. Sem dúvida, a água e os rios são elementos integradores, já que atravessam os países, sem necessidade de passaporte e são vínculos naturais que devem servir em uma relação mais intensa de integração entre os povos, para se conhecerem e se ajudarem. Os rios são uma forma natural de integração entre os países: eles fluem e isto bastou para que nos conscientizássemos.
Começamos com “Orquesta de la Papaya”, uma orquestra de integração centro-americana que foi crescendo e unindo músicos de todo o continente americano. Temos réplicas em outros países, o que é importante porque revela a força que se pode ter com um projeto como este. A capacidade integradora da cultura vai muito além das fronteiras, pois elas vieram depois de nossa cultura. A cultura nos une, nos identifica.
Em sua turnê pela América Latina conseguiram combinar 55 organizações estatais, públicas, privadas e comunitárias diferentes. Quais são os requisitos para que este tipo de parceria realmente funcione?
O principal requisito para as organizações que desejam participar é o de compartilhar objetivos comuns. Este é um
movimento que vem da sociedade civil: primeiro foram os músicos, em seguida as ONGs e, finalmente, os governos que
nos dão permissões. O mais bonito é que quando se começa a navegar pelos rios vai se criando algo como uma bola de neve,
vão-se unindo comunidades e ilusões. Antes mesmo de chegarmos à outra comunidade, já somos esperados, já tem gente
que quer se juntar a nós, escutar música, dividir mensagens, firmar compromissos em nome da água. Isto deu ao projeto um
grande impacto na mídia.
Acho que isso é parte da falta de conhecimento existente entre nossas regiões e
comunidades. Somos um continente, mas não nos conhecemos e esta iniciativa demonstra que temos muita vontade de
nos conhecermos.
É mais fácil trazer consciência através da música, por conta do seu poder de comunicar sem fronteiras. Quais as experiências, durante seus concertos, ao falar de água com as comunidades?
A música é uma linguagem superior de comunicação e, portanto, facilita muito a sensibilização das pessoas. A mensagem
chega mais clara do que em discursos ou outras atividades. A música facilita, e mais, a música convoca. Nossas experiências vão desde as mais extremas, como barreiras realizadas por pescadores para que a orquestra não passe, até as mais mundanas como reuniões para firmar acordos e compromissos com os rios e a proteção das águas. Não podemos nos esquecer que as regiões que compartilham rios são zonas de conflito, ou por serem fronteiras ou por conta de outras
atividades que acontecem nos leitos dos rios. Nos rios que unem Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, por exemplo, existem
fenômenos que vão desde o narcotráfico, o contrabando e a pobreza até a prostituição infantil. Estes temas sociais também são abordados na Orquestra.
O projeto não trata apenas de água e natureza, é também um espaço para conhecer e se conscientizar sobre outros assuntos sociais importantes para as comunidades que querem ser escutadas. Um aspecto importante da orquestra é que, ao percorrer os rios em barcos com artistas internacionais e com membros da imprensa, as comunidades visualizam seus problemas, o que tem sido uma grande experiência, já que todos aprendem e se conscientizam dos desafios ligados aos temas hídricos e sociais, que também são importantes.
A Bacia Amazônica detém 60% das florestas tropicais do Planeta, mas também em sua turnê pelo Brasil, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia, a organização International Rivers detecta 140 projetos hidroelétricos que tornam vulneráveis o sistema fluvial. De que maneira iniciativas como estas devem prestar contas do estado e do perigo de nossos rios?
O tema das hidroelétricas é dos mais polêmicos da região. Não encontramos nem opositores absolutos, nem outros setores
que queiram equilibrar esta relação. Percorremos as maiores represas - Itaipu e Yacyreta – e o que posso dizer é que as
comunidades ribeirinhas são grandes desertos: a pesca desapareceu, as espécies nativas não podem correr livremente, há
problemas com a desova dos peixes e há tráfi co de gente.
O Amazonas é a maior reserva de água doce do mundo e o rio Paraná também é de grande importância. Ambos devem ser
protegidos como sistemas terrestres que são. Mas também é preciso olhar para os “rios voadores” – como é chamado o rio
Sidney Pozuelo –, cuja enorme quantidade de água, foi perdida por conta da evaporação causada por desmatamento e outras
atividades intensivas.
De acordo com o Programa de Ação Mundial para a Proteção do Meio Ambiente Marinho, 90% dos poluentes que chegam ao mar vem dos rios. Como a “Orquesta del Río Infi nito” aborda os temas de degradação e contaminação?
O problema mais sério é o da contaminação das águas que vem das bacias hidrográficas altas. Das que percorremos, os rios
descem da cordilheira andina e estão contaminados por atividades de extrativismo e de produção. É preciso lembrar que uma
série de atividades realizada bacia acima, traz consequências bacia abaixo.
Como é possível unir músicos de toda a América Latina para cantarem pelos rios, quando estes se localizam em zonas fronteiriças de confl itos e de manejo de bacias hidrográfi cas?
É um tema interessante. A capacidade deviajar com músicos pelos rios é limitada: às vezes viajamos em um barco cenário
e vamos fazendo concertos, mas, de repente, organizamos outras atividades, como na última turnê, na qual íamos
parando de cidade em cidade, ao longo do rio, para reuniões com comunidades localizadas desde Iguaçu até Rosário. Preferimos este último tipo de encontro, já que não apresenta apenas uma orquestra unificada, mas aproveita os concertos para falar com as comunidades, analisar os problemas e tratar das soluções.
Além disso, esta experiência tem sido uma fonte de documentários e uma grande oportunidade para gravarmos e levarmos
para a América nossa música desconhecida, que não toca nas principais rádios. Desta forma, podemos divulgá-la e, por sua vez, convocar a comunidade para discutir sobre seus problemas hídricos.

O Rio da Prata, na Argentina, é o terceiro mais poluído do mundo, segundo o Fundo Mundial da Natureza (WWF).
Quantas turnês mais serão necessárias para atrair a atenção para os rios?
O Rio Paraná desemboca no Rio da Prata, motivo pelo qual neste ponto se unem a sedimentação e a contaminação por minerais, águas residuais e produção intensiva. É preciso revisar a relação de nossas cidades e dos rios, já que uma cidade como Buenos Aires vive de costas para a água. Em nossas turnês, descobrimos que os rios deixaram de ser navegáveis e se tornaram rotas de violência: há quem suba o leito do rio para roubar grãos, gado e madeira.
A “Orquestra del Río Infinito” faz parte da nova geração que quer reverter este processo para viver em harmonia com nossos
rios e com a riqueza existente em todas as bacias hidrográficas.

ACORDES PELA ÁGUA
A “Orquesta del Río Infinito” é um projeto que conta com integrantes musicais da América Central, do Caribe, da América do Sul e do Norte. São milhares de vozes que, em cada parada, se abrem para o conhecimento mútuo e para a participação dos músicos locais. www.rioinfinito.com
Em cada porto que chega, a “Orquesta del Río Infinito” realiza um festival com entrada gratuita e oficinas de encontro musical com a comunidade, a fim de compartilhar música e tradições. Cada comunidade relata sua própria “Carta de los Ríos”, onde se compromete a velar por sua bacia hidrográfica e pelo meio ambiente.
Manuel Obregón, criador e fundador deste projeto:
• Músico, compositor e produtor centro-americano.
• Estudou música na Costa Rica, na Espanha e na Suíça.
• É autor de mais de 20 CDs como solista e de outros tantos como músico convidado e como produtor.
• Em janeiro de 2002, reuniu 14 músicos dos 7 países centro-americanos, dando origem à primeira união regional de músicos, conhecida como “La Orquesta de la Papaya”.
• Focou seu trabalho criativo na música centro-americana e em sua relação com o meio ambiente.
• Em outubro de 2000, recebeu o prêmio da crítica musical em Nova Orleans (EUA) de melhor concerto do ano e foi declarado Cidadão Honorário Internacional.
• Atualmente, é Ministro da Cultura da Costa Rica.
