TECNOLOGIA
SANEAMENTO ECOLÓGICO
San Juan Tlacotenco, no México, aceitou o desafio de incorporar tecnologia básica Ecosan para melhorar suas colheitas e as condições de vida de seus habitantes.
Por: Ron Sawyer, diretor do grupo Sarar Transformación S.C. Kim Andersson, perito associado de Cooperação Bilateral em Saneamento Ecológico, Instituto do Meio-ambiente de Estocolmo.
ECOSAN:SANEAMENTO ECOLÓGICO
No povoado periurbano de San Juan Tlacotenco, no México, não só há carência de soluções adequadas de saneamento, mas também se faz necessário solucionar a escassez de água e satisfazer a demanda de fertilizantes orgânicos para obter
melhores colheitas, condições partilhadas por milhares de comunidades latino-americanas. Graças a estratégias e tecnologias
inovadoras, existe um potencial enorme para estabelecer alternativas mais sustentáveis de serviços de água e saneamento neste
tipo de assentamentos.
O povoado de San Juan Tlacotenco, com aproximadamente 2.000 habitantes, está localizado em uma área montanhosa no Município do Tepoztlán, Morelos, México. É uma comunidade com uma elevada taxa de crescimento, que ainda apresenta características culturais rurais, onde muitas famílias ainda dependem da produção agrícola em baixa escala. O nível econômico na comunidade varia, com rendas entre US$270-US$900 mensais por família. Atualmente, o tipo de saneamento mais comum na comunidade são as latrinas convencionais (de fossa seca ou com descarga de água por balde), que contribuem para a contaminação da água subterrânea em razão do solo ser de tipo vulcânico, que é muito permeável. O abastecimento de água potável é limitado, parcialmente solucionado com captação de água pluvial e, durante a temporada de seca, a compra de “pipas” (caminhões cisterna) de água a um preço muito elevado, ou com a coleta de água dos mananciais.
Harmonia com a natureza
Dentro deste contexto nasceu o projeto piloto Ecosan (sa-neamento ecológico). O saneamento ecológico baseia-se em
soluções simples de saneamento que oferecem alternativas para a escassez de água, uma vez que propõe sistemas que utilizam menos recurso hídrico do que sistemas convencionais, e incluem métodos e práticas para o tratamento e a reutilização de águas cinzas (saponáceas) e soluções para a segurança alimentar, uma vez que considera os principais resíduos orgânicos (lixo, urina e fezes) como recursos potenciais e não como refugos. Em 2005, foram instalados 30 sistemas domésticos do
Ecosan, incluindo um sanitário seco com separação de urina, captação de água pluvial e tratamento de águas saponáceas.
Além disso, estes sistemas contêm elementos de higienização de dejetos humanos, reutilização de nutrientes e de matéria orgânica em produção agrícola e de águas tratadas, com a finalidade principal de fechar os ciclos de nutrientes e da água.
Assim, o sistema Ecosan mostra-se muito atraente para comunidades periurbanas como a de San Juan Tlacotenco, com suas carências de fornecimento e altos custos de água, sua agricultura urbana e sua preocupação clara com a deterioração
ambiental. Dois anos depois, apenas duas das 30 famílias abandonaram este sistema, uma delas porque se mudou para
outro lugar e a outra porque enfrentou dificuldades na manutenção, dificuldades que estão sendo resolvidas. Um fator chave para a aceitação da abordagem Ecosan por parte das famílias envolvidas, foi a oferta de sanitários dignos com a integração do lavabo no ambiente do banheiro, obtendo assim a melhora da higiene, em comparação com as latrinas atuais. A capacitação integral e a participação comunitária foram outros componentes indispensáveis para assegurar o bom funcionamento e a manutenção dos sistemas. De acordo com uma avaliação externa realizada em abril de 2007, todas as pessoas que receberam estes sistemas disseram que continuarão mantendo suas privadas secas no futuro e a maioria delas declarou que, se tiverem a possibilidade, não trocarão o estilo de privada que têm.
Processo de organização
As famílias envolvidas receberam o apoio técnico do SARAR Transformación S.C., durante todo o processo de implementação, incluindo a organização comunitária, oficinas de conscientização, desenho, construção, uso, manutenção e fechamento do ciclo de nutrientes; e a criação de serviços de manutenção. As famílias contribuíram com a mão de obra e
materiais locais, enquanto que a Comissão Estadual de Água e Meio Ambiente de Morelos (CEAMA) subsidiou o projeto
com material de construção. Ao atribuir a responsabilidade da mão de obra à comunidade, foi gerado um conhecimento
local da construção dos sistemas ecológicos, cujo objetivo maior é a autorreplicação.
Novas expectativas
Embora o saneamento ecológico represente um possível cenário futuro para toda a comunidade de San Juan Tlacotenco, também existem outros sistemas convencionais que competem para satisfazer a demanda de saneamento. A partir da década de 70, o governo estadual e a Prefeitura de Tepoztlán tentaram realizar um sistema comunitário de distribuição de água potável, e como parte desta política, recentemente construíram uma colossal “cisterna” comunitária de 20.000 m3 para captar e armazenar água pluvial – iniciativa que sem dúvida pode despertar expectativas de ter WC (banheiro de fluxo-earrasto)
e portanto, acesso à drenagem.–
Curiosamente, quando o projeto piloto do Ecosan começou em San Juan, o governo municipal iniciou a instalação de um sistema de drenagem no centro da cabeceira de Tepoztlán. Isto proporcionou uma oportunidade concreta para comparar os custos e as conseqüências ambientais e socioeconômicas das duas diferentes opções –
O Ecosan e o sistema convencional de arrasto de água – se fossem implementados em San Juan Tlacotenco. (Ver quadro Sistemas de saneamento). O estudo comparativo demonstrou que os benefícios decorrentes do sistema Ecosan nesta comunidade seriam muitos, em comparação com uma instalação de drenagem. Uma forte evidencia são outras 126 famílias com interesse em implementar sistemas Ecosan. Do mesmo modo, as autoridades perceberam que o saneamento ecológico oferece vantagens, por isso acabam de concluir outros 30 sanitários ecológicos em San Juan Tlacotenco.
SISTEMAS DE SANEAMENTO
Os critérios básicos que devem ser incluídos para definir um sistema adequado de água e saneamento, segundo o grupo
consultor SARAR Transformación S.C., que oferece estratégias comunitárias para elevar a qualidade de vida em um contexto
ecologicamente sustentável, são:
• Proteger e promover a saúde humana: É importante que não apenas o sanitário (ou banheiro) seja seguro higienicamente, mas sim todo o sistema.
• Proporcionar proteção ambiental: O sistema deve evitar as emissões que poluam água, solo e ar. Além disso deve minimizar o uso de recursos naturais e ser reciclável, tanto na construção como em sua operação e manutenção.
• Considerar o fator socioeconômico: devem-se ponderar os investimentos iniciais, os custos recorrentes, a capacidade e vontade de pagar, assim como a cultura atual de água e saneamento.
Fonte: SARAR Transformación S.C.
ECOSAN VERSUS SISTEMAS CONVENCIONAIS
ALGUMAS DAS CONCLUSÕES MAIS RELEVANTES DECORRENTES DO ESTUDO PRÉVIO PARA ESTABELECER O SISTEMA ECOSAN NA COMUNIDADE DE SAN JUAN TLACONTENCO, NO MÉXICO, SÃO AS SEGUINTES:
• Para implementar o sistema naquela comunidade (400 famílias) seria necessário um investimento total de US$ 473.000, que
inclui tanto custos domésticos como públicos, incluindo a capacitação dos usuários. O investimento equivalente para o sistema de drenagem, incluindo uma planta de tratamento, seria quase três vezes maior: US$ 1.296.000
• A instalação de um sistema de serviço sanitário implicaria em um aumento no consumo de água de 45.000 litros/ano por família. O fornecimento desta quantidade de água na comunidade significaria um custo aproximado de US$ 80. Além disso representaria um custo ambiental pelo fato de se tratar de um recurso escasso.
• Frente a um alto investimento em tratamento, a descarga do serviço sanitário provocaria deságües poluídos em corpos de água, enquanto que o Ecosan sustenta-se no conceito de zero descargas de poluentes nos cursos d’água.
• Da perspectiva do saneamento por meio de drenagem, os dejetos humanos são considerados como refugos indesejados, enquanto que no Ecosan, são tratados como um recurso que deve ser reintegrado à produção agrícola de uma maneira segura.
• Se o saneamento ecológico obtiver aceitação social, pode fortalecer a autonomia da comunidade; principalmente pelas capacidades desenvolvidas por meio da participação plena das famílias e o benefício direto do uso de fertilizantes produzidos pelo próprio sistema (por exemplo, urina e fezes saneadas)
Fonte: Projeto Ecosan San Juan Tlacotenco
Opções sob medida
Pela experiência obtida no município do Tepoztlán – com sua enorme diversidade de tipos de moradia, cultura e níveis econômicos – tornou-se evidente que existe a necessidade de reconsiderar as bases e estratégias para novos investimentos em água e saneamento. A América Latina conta com uma grande parte da população mundial que carece de um acesso adequado ao saneamento, ou que conta com instalações que provocam impactos negativos ao ambiente e à saúde. O problema com a política convencional neste setor é que se aplica o mesmo conceito para todas as comunidades, sem realmente considerar as condições e as exigências técnicas, físicas e culturais específicas do local. De fato esta observação não só é válida para o sistema de fluxo e arrasto, mas também para o Ecosan. Por isso, em vez de concentrar-se em aplicar uma única técnica, é preciso retornar a critérios essenciais para obter um desenvolvimento sustentável (ver quadro: Ecosan versus sistemas convencionais). Para tomar uma decisão é necessário um estudo profundo das atuais condições técnicas, culturais, econômicas e ambientais. Com certeza esta maneira holística de enfrentar as problemáticas simbióticas da água e do saneamento exigirá soluções inovadoras sobre uma base mais ampla e firme, como sanitários com separação de urina e com fluxo de água, acúmulo de urina em casas multifamiliares, tratamento em tanques artificiais em escala comunitária, para ter uma água adequada para irrigação, e outras formas de reutilização do recurso. Por enquanto, a experiência em San Juan Tlacotenco demonstrou que o enfoque de saneamento ecológico baseado na separação de urina é uma opção sustentável para muitas comunidades da América Latina.

Novo complexo de residências multifamiliares no Erdos (China) que usa sistemas Ecosan, inclui sanitários secos com separação de urina, entre outros.
