AQUAVITAE

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REFLEXÕES COM AL GORE SOBRE A ÁGUA

REFLEXÕES COM AL GORE SOBRE A ÁGUA

O líder ambiental global e Prêmio Nobel da Paz 2007 afirma que mudança climática não é um problema político, científico ou ambiental. Seus impactos são um problema ético e moral que devemos resolver. Principais impactos na América Latina e projetos reconhecidos mundialmente com selo latino-americano promovem a mitigação e a adaptação do problema na região.

Este não é um problema político, científico ou ambiental. Os impactos da mudança climática são um problema ético e moral
que devemos resolver”. Sereno e direto, Al Gore não poupa palavras para expor um tema com o qual está totalmente comprometido.

Como principal convidado do Fórum Empresarial sobre Sustentabilidade e Meio Ambiente em San José, na Costa Rica,
Gore conseguiu reunir líderes políticos, empresariais e sociais para discutir e refl etir sobre os enormes desafi os que
a humanidade enfrenta nestes tempos, sob o slogan: “Mitigação e adaptação são caminhos que devemos fortalecer,
porque o aquecimento global não é uma teoria, é um fato”.

O ex-vice-presidente dos Estados Unidos sustenta que o aquecimento da Terra é irreversível devido às emissões
de gases de efeito estufa (GEE) e de determinadas ações do homem, fatores que causaram durante este século
um aumento da temperatura do planeta estimado entre 1,8ºC e 4ºC. Como consequência, o gelo no Pólo Norte
vai acabar derretendo completamente e o nível da água do mar pode subir até 59 cm, o que afetaria muitas popopulações,
algumas das quais já sofrem visivelmente com os impactos.

Esta opinião não é partilhada por muitos setores, que questionam os argumentos de Al Gore e do Painel Intergovernamental
sobre Mudança Climática, (IPCC, por suas siglas em inglês), indicando que o aquecimento global não tem nada de antropológico (criado pelo homem), é apenas um dos picos da atividade solar. “O homem e seu efeito estufa não são culpados de nada que não seja parte de um processo natural da história, mas o descuido de nossa amada Terra em si tem um impacto direto no biossistema que habitamos e isso, não podemos negar, é total culpa nossa. Mas entre não poder beber água potável ou comer de maneira saudável e o aquecimento global existe uma lacuna que ninguém se atreve a discutir seriamente”, afi rma o biofísico Nasif Nahle, membro da Academia de Ciências de Nova York e da Sociedade Americana para a Física. Da conferência de Al Gore, centrada nos desafi os da sociedade ante um cenário de aquecimento global, foi possível extrair quatro importantes refl exões sobre a questão hídrica:

As fontes de água estão em perigo devido aos impactos negativos do aquecimento global. “O primeiro grande desafio que
enfrentamos é: como garantir água e alimento aos 7 bilhões de pessoas, registrados em 2010?”, questionou de maneira direta, Al Gore.

Esta realidade se enquadra na situação mais geral do aquecimento global devido ao efeito do aumento das temperaturas
no ciclo da água, “um fato real, não uma teoria, que se baseia em estudos realizados pelo IPCC sobre aquecimento, há vários
anos”, afirma o ex-vice-presidente. 

Por esta razão, Al Gore insiste que o aquecimento global deve ser entendido como aumento da temperatura da Terra devido
ao excessivo uso de combustíveis fósseis (carvão natural, gás natural, petróleo e seus derivados), além de outros processos
industriais que provocam um acúmulo de gases estufa na atmosfera. 

Este efeito provoca ondas de calor e tem um impacto direto no ciclo natural da água. Elementos vitais como a água estão
ameaçados “pela falta de vontade política de países como Estados Unidos, China e Índia, de reduzirem sua emissão de GEE”,
argumenta Al Gore, acrescentando que anos de estudos com base em dados históricos determinaram o aumento da temperatura global.

• A ONU para Agricultura e Alimentação (FAO) advertiu, em 2009, que devido à redução da produtividade
pela degradação dos solos 50 milhões de pessoas na América Latina sofrem com a escassez de alimentos;

• O Fundo Ecológico Mundial na Argentina informa que o aumento na temperatura acarreta uma
redução de entre 2,5% e 5% na produção de milho, trigo, arroz e soja; 

• A produção de milho deve cair cerca de 15% no Brasil e 5% na Argentina, 3º e 5º produtores mundiais, respectivamente.

Desde 2007, os habitantes da Terra mantêm uma produção de 29,9 milhões de toneladas de CO2 no mundo. Se não mudarmos este comportamento, como indica Rajendra Pachauri – presidente do IPCC – , “as conseqüências resultarão em escassez hídrica e impacto nos ecossistemas”, o que, sem dúvida, continuará incidindo negativamente no ciclo da água.

As principais fontes hídricas estão sendo afetadas por este fenômeno, especialmente as calotas polares e as geleiras, cujas dimensões sofreram reduções significativas.

“A redução de blocos de neve e de gelo é mais um indício do aquecimento. Dados de satélites obtidos desde 1978 indicam que a média anual da extensão das geleiras do Ártico diminuiu 2,7% a cada década, com reduções ainda mais acentuadas no verão (7,4% por década). Em média, as geleiras da montanha e os picos de neve sofreram redução em ambos os emisférios”, segundo o VII Relatório sobre Mudança Climática do IPCC, apresentado em 2007.

Além disso – sustenta Al Gore – o fluxo de vários rios importantes também diminuiu devido à evaporação provocada pelo calor. Esta situação põe em risco o abastecimento hídrico, tanto para consumo humano como para produção alimentícia. “Em 2035, as extrações hídricas com o objetivo de garantir água para a produção de alimentos serão 27% maiores que a atual, por isso devemos proteger as fontes de abastecimento para a agricultura”, de acordo com o Instituto Internacional de Pesquisas sobre Política Alimentícia e o Instituto Internacional para o Manejo Hídrico.

Anomalias Globais de temperatura

QUESTÃO DE IMPACTO

As inundações e as secas produzem severos impactos sociais e econômicos. Estes são alguns exemplos ocorridos na
América Latina entre 2010 e o 1º Semestre de 2011.

BRASIL: Em janeiro de 2010, o impacto de uma semana de chuvas torrenciais nas regiões serranas do Rio de Janeiro
gerou um dos estados de emergência mais drásticos do país.

• 676 mortes e 350 desaparecidos;

• Bairros soterrados em Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis. Destruição de pontes, estradas e moradias. A região
ficou semanas sem água, nem eletricidade;

• Apenas nos primeiros dias, US$ 350 milhões foram investidos para atender às pessoas afetadas;

• O evento mudou a geografia da região, causando danos irreparáveis, como a alteração de bacias hidrográficas, de
rios e córregos. 

BOLÍVIA: Entre janeiro e abril de 2010, uma grave seca afetou a região de El Chaco, em Santa Cruz.

• 7 municípios afetados. Perdas de 90% nas lavouras de milho;

• 75% de todas as moradias perderam as reservas de suas caixas d’água. As fontes de água superficial baixaram 60%;

• A desnutrição crônica infantil afetou 25% da população;

• O verão 2009 – 2010 foi o mais seco em 20 anos.

COLÔMBIA: De abril de 2010 até maio deste ano, o país sofreu com uma intensa temporada de chuvas, cujos resultados
até agora foram:

• 400 mortos, 3 milhões de pessoas afetadas;

• 1,3 milhão hectares inundados; 70 mil cabeças de gado mortas;

• 1.030 municípios afetados de um total de 1.120 em todo o país;

• Mais de U$ 2 bilhões destinados às reparações em infraestrutura: estradas, rede de esgoto, moradias.

CHILE: Do final de 2010 até o início deste ano, o Chile enfrentou o clima seco.

• A seca se estendeu pelas regiões de Atacama, Coquimbo, Valparaíso, Metropolitana e O’Higgins;

• Os principais efeitos se observaram no setor agrícola, sendo as regiões mais afetadas as de Coquimbo e Valparaíso;

• Os níveis dos reservatórios baixaram, provocando uma crise na energia elétrica.

EQUADOR: Fortes chuvas e inundações atingiram o país em abril de 2010.

• 29 mortos e 34,5 mil pessoas afetadas;

• 2.203 casas destruídas nas regiões de Santa Elena, Los Ríos, Manabí e El Oro;

Enchentes nos rios Napo, Poro, Tena e Misahualli.

GUATEMALA: Desde 2009, o país vem enfrentando períodos de graves secas, que, na época, tinha resultado na
morte de 54 crianças. Em 2010, estes foram os impactos:

• Regiões mais afetadas: Zacapa, Jutiapa, El Progreso, Chiquimula, Santa Rosa;

• Diminuição de 38% no índice pluviométrico

• Investimento de US$ 34 milhões para atender 680 mil pessoas e garantir o fornecimento de alimentos, água potável,
serviços e equipe de saúde.

MÉXICO: Em setembro de 2010, dois furacões afetaram Veracruz e Sonora.

• Furacão Karl. Durante sua passagem por Veracruz e estados localizados ao sul do México, o furacão deixou 18 mortos,
1 milhão de desabrigados, 140 mil casas destruídas, enchente em 7 rios. Os manguezais na área levarão cerca de 10 anos para se recuperarem;

• Furacão Georgette. Durante sua passagem por Sonora, o furacão provocou 10 dias de chuva em 28 estados da
República Mexicana, danificando estradas, moradias e o sistema de abastecimento de água.

NICARÁGUA: A passagem do furacão Matthew, em setembro passado, resultou em:

• 54 mortos e 5 mil desabrigados;

• 8 mil casas inundadas e estragos em León, Chinandega, Matagalpa, Jinotega e Estelí;

• Aumento perigoso das águas do Lago de Manágua.

Uma segunda reflexão sobre a água, surgida na ocasião, trata de uma realidade inegável: nosso planeta enfrenta eventos
extremos, com incidência direta nas fontes de água. “A cada dia que passa as secas e as tempestades são mais fortes”, afirmou Al Gore, explicando que estes eventos – associados ao aquecimento global – nos obrigam a considerar três aspectos
fundamentais:

- Mortalidade dos seres humanos;

- Envolvimento de fontes hídricas e redução da quantidade e qualidade da água;
- Destruição de infraestrutura: pontes, estradas, rede de esgotos, casas, escolas, hospitais;

“Neste último século vivemos os 10 anos mais quentes da existência humana. Os dados são preocupantes”, assinala Al Gore,
enfatizando que “o mesmo calor que favorece a evaporação de água do oceano, desidrata os solos e promove a desertificação”.

Como efeito direto, os recursos hídricos enfrentam uma situação estressante de duas maneiras: por um lado, secas extremas
como as vividas no Paquistão e na Índia em 2010, devido a altíssimas temperaturas (os termômetros alcançaram os 53,2ºC);
por outro, inundações causadas por fortes tempestades e enchentes de rios que, durante 10 meses consecutivos, inundaram
900 dos 1.102 municípios da Colômbia, entre 2010 e 2011, fazendo com que 2 milhões de pessoas fossem afetadas e trazendo grandes prejuízos para o setor da construção civil. 

“De onde vem este estresse hídrico? Em parte, da natureza. Não há um dia sequer que chova de maneira regular. De fato, há séculos, o ser humano se acostumou a ver a chuva cair de forma irregular. Mais recentemente, com a chamada mudança
climática, a irregularidade das precipitações tem aumentado, por isso alguns países enfrentam, atualmente, dificuldades cada
vez maiores com relação à quantidade de água disponível. Mas a maioria do estresse hídrico não é devido a irregularidade das
chuvas, e sim ao crescimento das atividades e da evolução da forma de vida dos seres humanos”, afirma Gérard Payen, Presidente da Federação Internacional de Empresas Hídricas Privadas.

A degradação das terras áridas, semiáridas e sub-úmidas secas constituem um dos problemas ambientais atuais. Mais de 20 milhões de km² da superfície da América Latina e do Caribe são consideradas áreas suscetíveis a se tornarem desertos.

O VII Relatório sobre Mudança Climática do IPCC, de 2007, afirma que, caso as tendências de elevação de temperatura se mantenham, “muito provavelmente, aumentará a frequência extrema das ondas de calor e das precipitações intensas e, provavelmente, também aumentará a intensidade dos ciclones tropicais e haverá menor credibilidade para que os ciclones ao redor do mundo diminuam”.

O impacto direto em termos hídricos refere-se a dois fatores: menor disponibilidade de água e aumento das secas em latitudes médias e latitudes baixas semiáridas, além de centenas de milhares de pessoas expostas a um maior estresse hídrico. 

Ao confrontar o auditório com imagens chocantes dos efeitos dos ciclos de secas e inundações no México, Brasil, Bolívia, América Central, Estados Unidos, Europa, Filipinas, Índia e China, Al Gore afirmou: “40% da população mundial obtém água via água dos rios, mas eles estão morrendo”. A lista de regiões afetadas pelos eventos extremos é cada vez maior. (ver box)

O principal apelo feito pelo Prêmio Nobel da Paz 2007 e ativista ambiental Al Gore é levar a sério as ações de mitigação e adaptação, enfatizando que é preciso distinguir entre um conceito e outro para se tomar as melhores decisões.

A ação de atenuar ou mitigar, em relação à mudança climática, refere-se à aplicação de políticas destinadas a reduzir as emissões dos gases do efeito estufa (GEE) e potencializar os sumidouros. Já a adaptação está ligada às iniciativas e medidas para reduzir a vulnerabilidade dos sistemas naturais e humanos, diante dos efeitos reais ou esperados de uma mudança climática. Alguns exemplos de adaptação são a construção de diques fluviais ou costeiros, a substituição de plantas sensíveis ao choque térmico por outras mais resistentes, etc.

Segundo Al Gore, estes dois assuntos são básicos, e afirma: “hoje devemos atender às populações que migram de regiões onde as secas estão lhe causando forte impacto ou as inundações lhes forçando a mover-se”.

Ele insiste que o número de deslocados pelo aquecimento global aumentará, sobretudo diante do aumento dos níveis do mar, o que obrigará populações inteiras a evacuar as áreas afetadas para não morrerem afogadas. Al Gore destaca que, atualmente, existem 400 milhões de refugiados por esta razão.

 É aí que Al Gore lança um grande desafio aos governos, empresas e cidadãos: “Vamos taxar a emissão de CO2”. Só assim poderemos gerar recursos econômicos suficientes para as ações de mitigação e adaptação, que não podem ser apenas projetos no papel, devem ser uma realidade diária dos países. Outras fontes de recursos que estão sendo aplicadas em diferentes países são instrumentos econômicos, tais como: pagamentos de serviços ambientais, taxas por descarga de água, entre outros.

“Nas disposições mais recentes, o principal interesse é direcionado à regulamentação e gestão integrada dos recursos hidrológicos, que responde às limitações e desarticulações dos enfoques setoriais. As leis sobre os recursos hídricos se caracterizam por utilizar a bacia hidrográfica como unidade de gestão, o que descentraliza funções e responsabilidades do Estado em relação aos governos locais”. Esta é a abordagem promovida pelo Centro Regional de Informação sobre Desastres (CRID), quanto a análise do tema de medidas de adaptação do setor hídrico diante das mudanças climáticas.

Não se pode esquecer que, como afirma Al Gore, é geralmente mais caro remediar que prevenir e reparar os danos frente
aos impactos do aquecimento globa depois de já ocorridos será mais oneroso e difícil do que se preparar com antecipação para enfrentá-los.

OUTRAS FONTES DE ENERGIA PARA REDUZIR A DEMANDA DE PRODUÇÃO HIDROELÉTRICA

Para os próximos anos, será essencial que o planejamento dos recursos hídricos se ajuste aos princípios de gestão e adaptação que assegurem a integridade dos ecossistemas, e se volte para os cenários de vulnerabilidade frente à mudança climática. Será preciso tomar medidas para:

- fechar a lacuna entre oferta-demanda, desenvolvendo programas de contigência para enfrentar a seca;
- reduzir as perdas no abastecimento de água potável;
- desenvolver uma cultura hídrica;
- manter e restabelecer as principais funções de zonas úmidas e bacias hidrográficas;
- introduzir políticas ambientais para fazer frente às inundações e secas.

REFUGIADOS AMBIENTAIS

O termo refugiado ambiental, introduzido em 1985 pelo professor Essam El-Hinnawi, se refere a “uma pessoa que foi forçada a deixar seu habitat tradicional, temporal ou permanentemente, como consequência de um desequilíbrio ambiental significativo, seja por perigos naturais e/ou provocados pela atividade humana, o que põe em risco a sua existência e/ou afeta sua qualidade de vida”. Atualmente, leva-se em conta os prejuízos provocados pelos efeitos da mudança climática: aumento do nível do mar, eventos hidrometeorológicos e desertificação. 
Em maio de 2008, a passagem do ciclone Nargis por Mianmar resultou em 800 mil refugiados ambientais, que foram obrigados a se instalarem em outras regiões. Não existem mecanismos ou instrumentos para determinar este tipo de deslocamento. Não obstante, caso a temperatura do planeta continue aumentando, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) prevê entre 200 e 250 milhões de refugiados ambientais até 2050. 

Aqui estão alguns números de pessoas já registradas como refugiados ambientais na América Latina:

• 2003. A enchente do rio Salado, na Província de Santa Fé (Argentina) deslocou milhares de pessoas. Embora não haja dados oficiais, calcula-se 100 mil pessoas afetadas diretamente. De acordo com estudos, esta é uma consequência do mau manejo das bacias hidrográficas, do desmatamento descontrolado e excessivo e da má construção de uma barragem que fez o rio transbordar, juntamente com as fortes chuvas;

• 2005. A passagem do furacão Stan pela Guatemala provocou chuvas, desmoronamentos e inundações, a destruição de todo o povoado de Panabaj, na região do Lago Atitlán; 2.400 pessoas foram deslocadas para refúgios localizados em outra zona de risco;

• 2007. O Ministério do Interior do México reporta as seguintes informações:

-28,6 milhões de mexicanos vivem em zonas de alto risco ambiental;
-11 milhões, em zonas de alto risco;
-10 milhões de pessoas foram afetadas nas regiões fronteiriças do norte porque os aquíferos estão secando, o Rio Colorado está secando e as chuvas estão diminuindo;
- 20 milhões de pessoas foram afetadas nas regiões do Golfo de México pelos furacões.

• 2009. Um total de 30 mil pessoas abandonaram suas casas na Argentina, pelas seguintes razões:

- Deslizamentos de terra provocados pelo excessivo desmatamento foram os responsáveis pelo deslocamento de 1.000 pessoas em Tartagal, na província de Salta;
- Tornados na província de Misiones deixaram 100 mil famílias desabrigadas;
- Chuvas e inundações na Região Norte Grande Argentino e Entre Rios provocaram 14 mil deslocamentos por enchentes dos Rios Paraná e Uruguai.

Al Gore afirma, sem dúvidas, que a água é um direito de todos os seres humanos, um elemento vital e necessário para a existência do homem e um recurso para produzir alimento, energia e desenvolvimento.

Para reiterar a afirmação, disse que tal direito é um tema de ética e moral, um compromisso que não deve ser adiado e que “devemos agir rapidamente, já que as novas gerações nos perguntarão do por que não fizemos nada”. Esta questão importante – diz ele – deve nos levar a ter coragem para agir, “porque a mudança climática não é automática: você tem que estar convicto”.

Mas a convicção apenas não basta se não for acompanhada por ações que demonstrem que todos aceitam a responsabilidade
de assumir o desafio.

INICIATIVAS CONCRETAS: MELHORIAS CERTAS

Atenuar e adaptar são verbos que fazem parte da nova realidade e devem ser incorporadas na linguagem do desafio hídrico, mas especialmente para projetos que alcancem significativo impacto ambiental na mitigação dos efeitos do aquecimento global. Estas são algumas histórias de sucesso com selo latino-americano, reconhecidas mundialmente. 

BRASIL. Fundo Amazônia: A riqueza da biodiversidade, a captura de carbono e a abundância de água doce na Amazônianão tem comparação com nenhum outro ecossistema do mundo. O governo brasileiro estabeleceu este fundo para financiar ações de organizações governamentais ou não, destinadas a combater o desmatamento e promover a conservação e o uso sustentável da Amazônia como um reservatório de água e vida. O Brasil estabelece políticas e cria incentivos fiscais dentro de seu Plano Nacional de Mudança Climática, que fixa como meta a redução de 80% do desmatamento da Floresta até 2020, em comparação com os níveis registrados entre 1996 e 2005. Para 2021, espera-se um aporte de US$ 21 bilhões vindos de pessoas, empresas e doações institucionais, incluindo os governos dos países vizinhos. Para isso, o Brasil conta com o apoio da Noruega e tenta englobar todos os países da bacia amazônica (Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela). Mais informações: www.fundoamazonia.gov.br

COSTA RICA. Neutralidade de carbono: O país decidiu, unilateralmente, se tornar um território neutro em carbono, em 2021. Para isto, planejou uma estratégia integrada para adaptar as mudanças climáticas à sua economia e que pode ser aplicada em países com características similares. O processo começou por colocar a questão climática como prioridade do Plano Nacional de Desenvolvimento da Costa Rica. A estratégia estabelece um balanço zero ou negativo do inventário nacional de emissões, por fontes de todas as atividades realizadas pelo ser humano, dentro dos parâmetros do Painel Intergovernamental da Mudança Climática. Desta forma, pretende-se exercer impacto zero no clima A estratégia desenvolve duas agendas: ànacional, que inclui atenuação, adaptação e relação entre mudança climática e competitividade do país; internacional, que busca ter influência e atrair recursos econômicos de distintos países. Mais informações: www.encc.go.cr

EQUADOR. Iniciativa Yasuní-ITT: Esta proposta evita explorar combustíveis fósseis ao inibir ou proibir a extração de petróleo em áreas de alta sensibilidade biológica e cultural. Esta iniciativa é realizada no Parque Nacional Yasuní, local de grande biodiversidade, tombado pela UNESCO, em 1989, como Reserva Mundial da Biosfera. O estado equatoriano se compromete a deixar no solo, indefinidamente, em torno de 856 milhões de barris de petróleo, para evitar a emissão na atmosfera de 407 milhões de toneladas métricas de dióxido de carbono que seriam produzidos com a queima destes combustíveis fósseis. A suspensão da extração ocorreu em troca de uma compensação financeira da comunidade internacional por uma fração do valor estimado em 50% dos lucros que seriam gerados, caso ocorra a exploração deste recurso (aproximadamente US$ 350 milhões por anos). Os fundos captados foram reinvestidos na gestão de 19 áreas protegidas, num programa de reflorestamento na mudança da matriz energética. Isso foi possível com o apoio da Alemanha e da Fundação AVINA. Mais informações: www.yasuni-itt.gob.ec

MÉXICO. Sistema de captação de água pluvial. A Comissão Nacional da Água (CONAGUA) do México deverá lançar licitações de US$ 26 milhões, para construir um sistema de captação de águas pluviais do Rio dos Remédios na Cidade do México. As obras compreenderão a construção de dois túneis novos, que deverão se ligar com outros dois túneis de drenagem: Emissor Poniente e Emissor Oriente, atualmente em construção no estado do México. A água da chuva seria utilizada em sistemas de irrigação e em outras atividades. A CONAGUA pretende completar quatro projetos deste sistema no período 2008-2012. Mais informações: www.cna.gob.mx

VISÕES SEMELHANTES

Existem vários outros líderes mundiais que fazem um apelo similar para enfrentar este desafio de dimensões éticas:

“Não poderemos sequer pensar em direito à água, se não existe água. Este é um dilema humano que devemos resolver”.
Maude Barlow, Prêmio Nobel Alternativo. Fundadora do Projeto Azul, Canadá.

“Os dados ocultos por detrás de tanto falatório revelam que 20% da humanidade comete 80% das agressões contra a
natureza, crimes estes que a humanidade inteira pagará pelas consequências da degradação da terra, pela intoxicação do
ar, o envenenamento hídrico, pela variações do clima e pela dilapidação dos recursos naturais não renováveis”. Eduardo
Galeano, escritor uruguaio.

“Estamos entrando numa fase altamente vulnerável da existência de nosso planeta e da existência da humanidade. Nenhuma
redução (de gases do efeito estufa) evitará outro aumento de temperatura de menos de 0,7 ºC nas próximas duas
décadas”. Saleemul Huq, Instituto Internacional para o Ambiente e o Desenvolvimento, Bangladesh.

“Para evitar a tragédia, é urgente reduzir as emissões com estratégias de adaptação, mitigação, concessão de tecnologias
aos países mais vulneráveis e financiamento abundante para estimular tais medidas. A preocupação agora, não é garantir
a continuidade do status quo, mas sim equilibrar o sistema terrestre, a vida em geral e a vida humana em particular”, Leonardo Boff. Teólogo, filósofo, escritor brasileiro.