MARÇO 2008
CULTURA
ÁGUA E HIGIENE: ENSINO A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA SUSTENTÁVEL E HOLÍSTICA
DIVERSAS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS, ESTADOS E SOCIEDADE CIVIL INCLUÍRAM EM SUAS PRIORIDADES A EDUCAÇÃO E A SENSIBILIZAÇÃO
Por Ana Beatriz Fernández
Existe um ditado popular que diz popular que diz: "Bendita seja a água, por ser saudável e ser barata", entretanto a cada
ano mais de cinco milhões de pessoas morrem como conseqüência de doenças relacionadas com a água, segundo dados de 2004 da Organização Mundial da Saúde. Deste número, 90% são crianças menores de cinco anos, principalmente nascidas em países em desenvolvimento.
Devido ao flagelo que estes números trágicos representam para a humanidade, entre outros igualmente alarmantes, é que nos últimos anos diversas organizações internacionais, estados e diversas sociedades civis colocaram na mira o problema da gestão da água partindo de uma perspectiva sustentável e holística, que inclui também o ensino de hábitos de higiene.
Desde a Organização das Nações Unidas e diversos governos, passando por entidades financeiras supranacionais, até o setor privado e as comunidades organizadas, diferentes setores iniciaram uma série de estratégias e ações para concretizar um desenvolvimento integral de um dos recursos mais valorizados e fundamentais para a vida, a água.
O acesso com qualidade a este elemento vital é um direito básico das pessoas. É o que emana do artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela Resolução da Assembléia Geral 217 A (iii) de 10 de dezembro de 1948 da ONU: "Todas as pessoas têm direito a um nível de vida adequado que lhes assegure, assim com a sua família, a saúde e o bem estar, e em especial a alimentação, o vestuário, a moradia, a assistência médica e os serviços sociais necessários".
Água e saúde é um binômio inquestionável. Desde o simples ato cotidiano de defecar em uma privada ou beber um refrescante copo d'água, até gozar de saúde, há um trajeto no qual uma grande quantidade de ações ocorrem e são
definitivas para viver uma vida com dignidade.
O Relatório sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos no Mundo "A Água, uma responsabilidade compartilhada" das Nações Unidas para o ano de 2006, o expressa em sua análise: "O estado da saúde humana está estreitamente vinculado a uma série de condições relacionadas com a água: potabilidade, saneamento adequado, redução da carga de doenças relacionadas com a água e existência de ecossistemas de água doce saudáveis".
Cultura da higiene
Nesta questão do acesso à água e de viver de forma saudável, a cultura da higiene intervém como elemento crucial. Mas
não é uma responsabilidade apenas das pessoas que utilizam o líquido para preparar alimentos ou para tomar um banho,
é uma responsabilidade compartilhada entre diversos atores, cujo compromisso com o desenvolvimento sustentável do recurso hídrico para benefício dos seres humanos deve ser inadiável.
...42% das pessoas no mundo não têm acesso a um banheiro, situação por exemplo, que exibe as verdadeiras condições de higiene em quase metade das casas do planeta.
Claro está que a educação e a sensibilização da população sobre a importância de práticas e hábitos de asseio são críticas para que melhorem radicalmente os indicadores de saúde dos países em desenvolvimento.
Mas em princípio, deve-se fornecer a água potável como um serviço acessível para todas as pessoas.
Na América Latina, a porcentagem da população urbana com acesso a um abastecimento de água e saneamento é comparativamente melhor do que na África e na Ásia, e levemente menor do que na Europa; entretanto, em outros indicadores sua eficiência diminui (Ver quadro: "Cobertura de água potável em países da América Latina"). Estes dados alentadores perdem força quando se considera, por exemplo, que embora a região conte com 30% dos recursos hídricos do mundo, a contaminação da água devido às águas residuais domésticas torna difícil o acesso à água potável em algumas cidades.
O relatório "A água, uma responsabilidade compartilhada" vai mais além de sua exortação para a tomada de decisões políticas e o avanço efetivo na gestão integrada do recurso hídrico, trazendo à baila assuntos como a corrupção e a falta de investimentos no setor. "A insuficiência de água se deve, principalmente, a um abastecimento ineficaz e não a um déficit do recurso. Tal insuficiência se deve, muitas vezes, a uma má gestão, à corrupção, à falta de instituições adequadas, à inércia burocrática e à falta de investimentos, tanto em capacitação humana, como em infra-estruturas físicas”.
Da mesma forma, o documento enfatiza a importância da educação sobre o tema: "A escassez de água e o aumento da
contaminação são desafios de origem tanto social como política, que podem ser enfrentados modificando a demanda e o uso da água, mediante a educação, uma maior sensibilização e através da reforma das políticas hídricas.”
COBERTURA DE ÁGUA POTÁVEL EM PAÍSES DA AMÉRICA LATINA

Fonte: UNDP 2005 em: Documento "Américas", IV Fórum Mundial da Água
Água, saneamento e higiene
Sem um marco regulatório adequado seria impossível que os países comprometidos com os Objetivos de Desenvolvimento do
Milênio 2005-2015 das Nações Unidas cumpram a meta 10 do objetivo 7 de "reduzir à metade, para o ano de 2015, a porcentagem de pessoas sem acesso sustentável à água potável e ao saneamento básico".
Ao abrigo desta proposta internacional, a Força Tarefa sobre a Água e o Saneamento, equipe consultiva independente
do Projeto do Milênio da ONU, definiu o trio de palavras abastecimento de água, saneamento e higiene como a pedra
angular da saúde pública e do bem-estar social e econômico.
Outro marco relacionado com os atuais esforços pela gestão integral da água é a realização do IV Fórum Mundial da Água,
celebrado em março de 2006 no México. Em seu apartado "Água e saneamento para todos", também foi analisado e discutido o tema de saneamento e higiene. Neste marco, um dos relatórios finais chamou a atenção sobre o fato de que estes dois eixos "desaparecem durante as fases de planejamento, formulação de políticas, orçamento e implementação, enquanto que a maior parte do esforço e dos recursos são alocados para o abastecimento".
Além disso, o documento foi claro na afirmação de que os dois conceitos "precisam movimentar-se para a frente e para o centro", uma vez que são elementos para um desenvolvimento com dignidade.
Conforme evidenciado, existe uma realidade que não é colocada sobre a mesa: 42% das pessoas no mundo não têm acesso a um banheiro, situação por exemplo, que exibe as verdadeiras condições de higiene em quase metade das casas do planeta.
Trazer a público esta realidade e debatê-la é de grande importância, pois segundo alerta o documento "Água e Saneamento para todos" resultante do IV Fórum Mundial da Água, a principal causa da transmissão de doenças relacionadas com a água é o ciclo fecal-oral.
Por isso, o relatório conclui que é de grande importância o adequado fornecimento de água e saneamento, em conjunto com comportamentos higiênicos (especialmente lavagem das mãos, manejo e armazenamento seguro de água e a adequada eliminação de fezes).
Para romper o ciclo fecal-oral, é urgente a adoção de práticas saudáveis (mudança cultural) e o uso de tecnologias que contenham e saneiem a matéria fecal (Ver exemplos nas seções Casos e Saúde)
Os países devem enfrentar o desafio de melhorar o serviço de saneamento, com estratégias diferentes das que foram empregadas para expandir o acesso ao fornecimento de água.
Estas ações devem ser dirigidas não apenas à construção de condições adequadas, mas também a entender o quê motiva as
pessoas a atuar de determinadas maneiras.
A sensibilização, a educação, a mobilização, a informação e o marketing social dirigidos às famílias, comunidades escolas e autoridades públicas, podem proporcionar uma mudança cultural com a qual as sociedades em desenvolvimento poderão verdadeiramente avançar.

O Ecoclub da Bolívia desenvolveu projetos de tecnologias apropriadas em água potável e saneamento. Cortesia de Ecoclub
da Bolívia. Projeto Adolescente Água e Juventude de Santa Cruz.
