DEZEMBRO 2009
AMBIENTE
DECISÕES ABAIXO DE ZERO
As geleiras tropicais da cordilheira dos Andes estão em processo acelerado de degelo por conta do aquecimento global e do fenômeno El Niño, que provocam problemas ambientais nestes reservatórios d’água, especialmente no Equador, no Peru e na Bolívia.
POR BORIS RAMÍREZ
A América Latina está unida no tema recursos hídricos por grandes bacias hidrográficas, florestas e lençóis freáticos. Mas poucas são as vezes em que as geleiras tropicais, localizadas na Cordilheira dos Andes e que constituem fontes naturais na provisão e preservação da água doce, são analisadas. Os Glaciares do Peru, da Bolívia, do Equador e da Colômbia estão sob graves processos de degelo, por conta da mudança climática.
“As geleiras, além de serem uma reserva d’água, são um bom indicador dos efeitos da mudança climática, por isso, a notícia de que as principais geleiras do mundo apresentam balanço de massa negativo e que muitas delas estão retrocedendo perigosamente, não é boa”, afirma o glaciólogo Gino Casassa, do Centro de Estudos Científicos do Chile.
O fato é que as geleiras andinas entraram em fase acelerada de retrocesso, devido ao aquecimento global e ao fenômenometeorológico conhecido como El Niño, e estima-se que em 20 ou 30 anos deverão desaparecer completamente. Essa foi uma das conclusões de 120 especialistas, durante cúpula sobre o tema, realizada na cidade de Huaraz (Peru), em julho
passado. O congresso analisou o degelo das geleiras no Andes e as repercussões negativas para os recursos hídricos. “Esta extinção causará um impacto dramático no fornecimento de água, na agricultura, na geração de energia e no bem-estar geral”, afirmou Marco Zapata, Coordenador Geral da Unidade de Glaciologia do INRENA, do Peru.
Na América Latina, as geleiras tropicais localizam-se em sua maioria na Cordilheira dos Andes, sendo: 71% no Peru, 20%
na Bolívia, 4% no Equador e 4% na Colômbia. Elas cobrem uma superfície de 2.500 quilômetros quadrados e são particularmente
importantes por conta dos recursos hídricos que oferecem a cidades como Lima, Quito e Sucre, além de povoados localizados próximos às altas montanhas.
MARCAS PERIGOSAS
As geleiras são grandes massas de gelo sedimentadas em regiões onde a acumulação de neve é superior ao degelo, e
cuja parte inferior desliza muito lentamente, como se fosse um rio de gelo.
É o caso particular das geleiras tropicais, cujo degelo se deve, principalmente, a dois motivos: aquecimento global, provocado
pelas emissões de gases que contribuem para o efeito estufa; e mudança climática, provocada pelo El Niño, uma corrente marinha de ar quente que faz com que certas regiões sofram aumento de temperatura, ocasionando secas em algumas regiões e inundações em outras.
Durante as fases quentes do El Niño, as geleiras perdem uma massa de 600 a 1.200 milímetros, por ano. No entanto, no período oposto (conhecido como fenômeno La Niña), mais frio e úmido, as geleiras se equilibram e chegam a atingir um excedente que impede temporariamente seu declive.
As condições atuais geram a perda de imensas reservas de água doce para o consumo humano e também para as bacias hidrográficas, que contribuem, dentre outras coisas, para a geração de energia hidroelétrica. Nas épocas da chuva, as inundações aumentam, ocasionando uma redução na massa de gelo e neve, que, por sua vez, faz com que o aumento no degelo abasteça os rios durante as secas. Com a diminuição da massa de gelo, menor a quantidade de água nos rios.
"As geleiras do Equador, Peru e Bolívia estão com os dias contados", afirmou Juan Carlos Villalonga, da ONG Greenpeace.
Para sustentar esta dramática referência, Villalonga citou como exemplos o desaparecimento do glacial Chacaltaya, na Bolívia, ocorrido em agosto último, após 18 mil anos de existência e cujo degelo total era esperado para 2015, de acordo
com os especialistas. Outras evidências são a perda de 20% do volume do glacial peruano Quelcaya e as precipitações na
base do glacial Cayambe, no Equador.
"As geleiras do Equador ou da Bolívia, por serem menores, podem entrar em colapso mais fácil e rapidamente", indicou
o glaciólogo Ricardo Villalba, do Instituto Argentino de Nivología, Glaciología y Ciencias. Este é o resultado de um estudo
intitulado "Mudança climática: Futuro negro para as geleiras", elaborado pelo Greenpeace, que alerta para o fato de que algumas geleiras equatorianas abastecem 50% da água utilizada em Quito.
Outro dado destacado pelos especialistas é que, no últimos 35 anos, as geleiras do Peru sofreram redução de 22%, o que
leva, por sua vez, à redução de 12% do fornecimento de água na costa, onde vive cerca de 60% de sua população.
‘‘Em agosto deste ano, o glacial Chacaltaya, na Bolívia, desapareceu após 18 mil anos de existência e, cujo degelo total, era esperado para 2015.‘‘

Foto: SXC
IMPACTOS SOCIAIS
O INFORME DE 2007, DA CÚPULA INTERGOVERNAMENTAL SOBRE MUDANÇA CLIMÁTICA, INDICAVA QUE O PRINCIPAL IMPACTO DO DERRETIMENTO DAS GELEIRAS TROPICAIS DA AMÉRICA LATINA ERA O ABASTECIMENTO DE ÁGUA E SEU EFEITO NOS ECOSSISTEMAS. UM ANO DEPOIS, O ESTUDO LOS IMPACTOS DEL CAMBIO CLIMÁTICO EN AMÉRICA LATINA, DO ENGENHEIRO QUÍMICO WALTER VERGARA, REALIZADO PARA O BANCO MUNDIAL (BIRD) REVELOU OS VERDADEIROS IMPACTOS SOCIAIS DO DEGELO DOS GLACIARES NO PERU, EQUADOR E BOLÍVIA.
• 30 milhões de pessoas afetadas pela falta de abastecimento de água nas bacias hidrográficas destes três países, com efeito na agricultura e nos ecossistemas.
• Estas geleiras fornecem 50% da água que vai para cidade de Quito e 30% da de La Paz.
• O volume das geleiras no Peru perdeu o equivalente a 7 mil metros cúbicos de água, quantidade necessária para abastecer durante 10 anos a cidade de Lima.
• Há também um impacto nos leitos dos rios que fornecem energia elétrica. A água das geleiras é utilizada para gerar 81% da eletricidade no Peru, 72% no Equador, 73% na Colômbia e 50% na Bolívia.
Outro dado importante vindo do Serviço Nacional de Meteorologia e Hidrologia do Peru é que, desde 1970,
as geleiras andinas perderam 20% de seu volume.
‘‘ Na América Latina, as geleiras tropicais estão localizadas, em sua maioria, na Cordilheira dos Andes e são particularmente importantes por conta dos recursos hídricos que oferecem a cidades como Lima, Quito e La Paz, além de povoados localizados próximos às altas montanhas.‘‘
DECISÕES FRIAS
Outras duas regiões de grande quantidade de geleiras da América do Sul são Argentina e Chile, e elas também estão sofrendo
com os impactos negativos. Na Patagônia, existem 20 mil quilômetros quadrados de glaciares entre estes dois países. Os Campos de Hielo Sur, localizado entre ambos, chegam a 13 mil quilômetros quadrados; os Campos de Hielo Norte, no Chile,
constituem 4.200 quilômetros quadrados e a cordilheira Darwin, dividida entre os dois países, tem 2.500 quilômetros quadrados.
Dados da Cúpula Intergovernamental sobre Mudança Climática mostram que a média da temperatura global, nos últimos
100 anos, aumentou 0,74ºC e os gelos e neves perenes decresceram em escala global.
Os especialistas levam na agenda o tema do derretimento para a Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que será realizada em Copenhague (Dinamarca), em dezembro deste ano, pois consideram a situação crítica, mas com possibilidades de reverter o quadro: em 2012 deve ser assinado um novo regime para a redução de emissões, no cumprimento dos compromissos assumidos no Protocolo de Kyoto.
Os cientistas sustentam que o tratado deve reduzir as emissões entre 25% e 40% para 2020. Assim, da fria capital
da Dinamarca, onde os habitantes conhecem bem o valor das geleiras, decisões acertadas e urgentes deverão ser tomadas. Sem dúvida alguma, é preciso que sejam tomadas com muita frieza e é preciso que suas implicações cheguem às regiões mais quentes.

