SETEMBRO 2009
CULTURA
ESFORÇO CRIADOR PELA ÁGUA
Cada vez mais artistas vêem nos recursos hídricos inspiração para suas criações e buscam outros caminhos para
comprometer o público com o tema.
POR BORIS RAMÍREZ
Foto: Carmen Abdo
Aágua como inspiração. A água como compromisso criativo. É isso que artistas latino-americanos têm feito, para reiterarem seu compromisso com os recursos hídricos.
A FORÇA DO RIO
“Río” é o título do novo álbum do grupo colombiano Aterciopelados www.aterciopelados.com que, desde outubro do ano passado, flui, assim como rio, com força chegando às margens e abordando como tema o principal componente da Mãe Terra: a água.
“Salvemos nosso sangue que corre / bebamos água vital que flui / unamos o fio doce que tece / cantemos para que regressem os peixes. / Preces para o rio.”
Este é um dos trechos de uma música dos Aterciopelados que ecoa por toda América Latina, Estados Unidos e Europa e que faz parte de seu sétimo disco, que envia mensagens, numa linguagem bastante popular, da brisa da natureza para a cidade. “É a metáfora de recuperação de nosso rio”, cantam eles. O grupo apóia o referendo pela água na Colômbia, que deverá fazer parte de outras iniciativas a serem levadas a cabo no processo de recuperação do Rio Bogotá, atualmente contaminado.
“Rio flui com força e conceitualmente toca várias margens: a ambiental, com a qual propõe se tornar cúmplice e, que aos nossos olhos, não dá espera. A mãe terra precisa de uma mudança de atitude da raça que a povoa, e cada um, de seu lugar, deve contribuir com isso”, insistem Andrea Echeverri e Héctor Buitrago, que, há anos, fazem parte da campanha pelo referendo da água na Colômbia.
Este material não apenas exalta o valor do rio, como também canta a espiritualidade, a decência, a humanidade e a
mulher como fonte criadora de vida. A capa do disco é um grafite (feito à mão com pintura de água) de uma anaconda
ancestral, mãe da humanidade, segundo os indígenas e símbolo do rio.
JÓIAS AQUÁTICAS
Pedro Brando é um famoso joalheiro brasileiro, cujas criações estão fazendo brilhar estrelas do mundo todo, como Nicole Kidman, Angelina Jolie e Brooke Shields, entre outras. Em sua loja, localizada na elegante Rua Oscar Freire, na cosmopolita
cidade de São Paulo (Brasil), Brando não apenas mima os famosos, como também é um compro- missado com o tema água.
Por esta razão desenhou uma coleção de jóias, intitulada “Gotas d’Água”, cuja criatividade motivou a proteção dos recursos
naturais e, em especial, da água. A coleção, inspirada na canção de mesmo nome do cantor e compositor, também brasileiro, Chico Buarque, tem como objetivo ajudar a difundir o projeto Mensageiro das Águas, da Fundação Francés Libertés, presidida por Danielle Mitterrand, ativista social e ex-primeira dama da França, que caminha pelo mundo levando mensagens de conscientização às pessoas, acerca dos problemas de escassez e falta de acesso à água potável.
Brando desenhou com diamantes uma série de peças únicas, com o formato de uma gota d’água. Da mesma forma, deverá
produzir duas mil correntes para doar ao nobre projeto.
ORQUESTRA LÍQUIDA
O sonho de navegar por águas musicais que permitam a fusão de uma América sincretista, tomando como motivo a relação
com a água, desde o Mississipi até o Rio da Prata, é o que pretende a Orquesta del Río Infinito, projeto regional idealizado pelo pianista costarriquense Manuel Obregón www.rioinfinito.com.
A idéia, inspirada no trabalho do paraguaio Agustín Barrios Mangoré, que percorreu a América compilando música, e que foi retomada por Obregón e pela Orquesta de la Papaya - músicos dos sete países da América Central - viaja convocando
organizações, comunidades e seguidores. O objetivo é reunir 100 artistas (atualmente somam 53) e, desta forma, unir a música indígena e crioula de toda América. O propósito não é apenas musical, mas também o de conscientizar sobre a degradação ambiental e de mudar a forma de relacionamento entre os seres humanos, os rios e a música.
O itinerário pesquisado engloba rios da América Central, do Caribe, dos países Andinos e das bacias Amazônicas,
aproveitando também para se levar a mensagem em prol da natureza e da água. León Gieco e Gustavo Santaolalla (vencedor de um Oscar pela música do filme Babel, em 2006) fazem parte dos entusiastas do projeto, que inclui também músicos do Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, Belize, México, Estados Unidos e Espanha.
Em 2008, foram percorridos 4.600 quilômetros na bacia do Rio Paraná, desde o pantanal boliviano-brasileiro, através do Paraguai e da Argentina, até Montevidéu. Para 2009, Obregón prevê um giro pelas bacias dos rios Amazonas e Mississipi.
Além disso, estão previstos concertos no Río San Juan e no Lago da Nicarágua, bem como em La Ceiba (Honduras).
“Este primeiro giro transcendeu todas as expectativas que tínhamos, convertendo-se em um projeto de enorme poder e capacidade de impacto no setor ambiental. Além do mais, muitos músicos de todo o continente entraram em contato comigo, para fazerem parte da Orquestra. Estou bastante satisfeito e confiante de que continuaremos adiante com a ajuda de muitos setores”, afirmou Obregón, diretor da Orquestra.
Durante as turnês realizadas, estão inclusos concertos, oficinas e festivais com músicos e artistas locais, além de espaços abertos para diálogos,rituais de proteção para os rios, saraus, grupos culturais e teatro. Em cada comunidade, os líderes locais e seus habitantes deverão entregar sua Carta dos Rios para a Orquestra, onde expressam seus sonhos, desafios e compromissos. O projeto conta com o apoio da Fundação AVINA, Hivos, UICN, Instituto Tecnológico da Costa Rica, Sí Producciones e o selo Papaya Music.
