AQUAVITAE

MARÇO 2012

TEMAS PRINCIPAIS

URGENTE: COMPROMISSO INTERGERACIONAL PELA ÁGUA

URGENTE: COMPROMISSO INTERGERACIONAL PELA ÁGUA

Autoridades latino-americanas fazem um balanço sobre o que tem sido feito e o que vem falhando neste compromisso fundamental. Jovens de vários países da América Latina ergueram suas vozes e nos contaram seus desejos e desafios sobre a água.

por boris ramírez

CADA GERAÇÃO TEM UMA OBRIGAÇÃO, E AS NOVAS A CUMPREM MANTENDO-SE SENSIBILIZADAS SOBRE QUESTÕES AMBIENTAIS.
SENDO ASSIM, ESTAMOS EM DÍVIDA PORQUE NÃO FOI POSSÍVEL TRANSMITIR UM VÍNCULO MAIS VITAL COM AS QUESTÕES DE ÁGUA E SANEAMENTO. ESTA É UMA RESPONSABILIDADE INEVITÁVEL.

COMPROMISSO INTERGERACIONAL PELA ÁGUA URGENTE

O fato de que a água é um bem essencial para a vida em todas as suas formas, representa razão suficiente para construir compromissos que assegurem a conservação das funções hidrológicas, biológicas e químicas dos ecossistemas que sustentam a própria vida e permitem recuperar (ou pelo menos manter) sua qualidade, de forma a garantir o abastecimento para toda a
população atual e futura do planeta. 

De acordo com essas premissas, todos nós, seres humanos do planeta, somos obrigados a ajustar nossas atividades aos
limites e à capacidade autorreguladora da natureza. Cada geração tem uma obrigação e deve assumir um compromisso
em relação à água que as próximas gerações vão beber, usar e aproveitar.

Desta forma, em novembro de 2011, foram convocados líderes latino-americanos para discutir o compromisso intergeracional
com o setor de água como um passo necessário para reorientar o tratamento e a administração, no sentido de uma gestão
integral, compartilhada e inteligente dos recursos hídricos, a partir do esquema do Sétimo Diálogo Interamericano sobre
Gestão da Água

Questões fundamentais vêm surgindo há vários anos: No que falharam as últimas gerações? Como é possível comprometer
mais jovens com a água em uma visão planetária? Qual deve ser o papel deles na sustentabilidade de um elemento vital
para a existência do Planeta?


A América Latina não quer ficar de braços cruzados perante esta questão fundamental. Por isso, o tema foi discutido no
ano de 2011 com representantes de 34 países da região, de setores governamentais, acadêmicos, empresariais, ONGs, sociedade civil e setores produtivos (agricultura, alimentos, serviços, comunicações, construção, silvicultura, pecuária, energia,
indústria, mineração, infraestrutura, transporte, habitação, turismo, saneamento e serviços públicos). Juntos, estes representantes identificaram três linhas de compromisso:

As perguntas são fundamentais. As respostas devem ser esclarecedoras. Ensinamos os jovens latino-americanos a se comprometerem com a água? Eles sentem-se envolvidos e com algum nível de responsabilidade com os recursos hídricos?
Se estiverem comprometidos com a água, como pensam que ela deve ser protegida?

A Aqua Vitae entrevistou jovens latino-americanos. Estas são suas reflexões, que nos permitem acumular conhecimento sobre o que eles necessitam para este vínculo essencial entre os seres humanos e a água.

JOVENS DE VÁRIOS PAÍSES LATINO-AMERICANOS ERGUERAM SUAS VOZES E NOS CONTARAM SEUS DESEJOS E DESAFIOS
SOBRE A ÁGUA

• A água é um bem essencial para a vida em todas as suas formas, razão suficiente para desenvolver compromissos
que garantam a conservação de suas funções hidrológicas, biológicas e químicas e que permitam recuperar (ou pelo menos manter) sua qualidade, de forma tal a garantir o abastecimento para toda a população atual e futura do planeta.
• Todos os habitantes do planeta estão obrigados a ajustar as suas atividades aos limites e à capacidade autorreguladora
da natureza. Cada geração tem uma obrigação e deve assumir um compromisso em relação à água que as
próximas gerações irão beber, usar e aproveitar.
• O compromisso intergeracional deve reorientar para uma gestão da água integrada, integral, compartilhada e inteligente, que potencializa o bem-estar social e o desenvolvimento econômico de forma equitativa, sem comprometer a integridade dos ecossistemas, ou o direito das gerações futuras de usá-los como base de sua existência e qualidade de vida.

 

Todas as pessoas, não só no meu país, devem assumir um compromisso verdadeiro com a água, que vai desde ensinar em casas e escolas sobre como se pode conservar e salvar este recurso, até praticar ações como fechar todas as chaves (torneiras) de nossas casas, não se prolongando mais tempo do que o necessário debaixo do chuveiro. Cada ação, por menor que seja, pode fazer a diferença.Sinto uma grande responsabilidade, pois na educação que me foi dada, muitas vezes explicaram-me que a existência da água está em minhas mãos, nas mãos da minha geração. Portanto, é muito importante que eu conheça as táticas para conservação dos recursoshídricos que a natureza nos oferece.
ADRIANA LÓPEZ SALGADO, 18 anos. El Salvador.

 Creio que o compromisso que deve existir em matéria de gestão e utilização dos recursos hídricos é fundamental e deve reger todas as nossas atividades, para que girem em torno disso. É de suma importância ter e criar consciência no cuidado e na boa gestão deste líquido vital. De minha parte, me sinto responsável, comprometida e capaz de fazer a diferença.
Devemos nos comprometer na proteção e boa gestão deste recurso; as ações que serão realizadas vão desde algo tão simples como potencializar o uso em nossa casa, e, em toda atividade em que nos beneficiemos com o uso de água. Para ofuturo, nosso objetivo deve ser preservar as bacias hidrográficas, bem como suas margens, evitando a poluição e o desmatamento para garantir aqualidade dos efluentes.
EUGENIA HANDAL CHINCHILLA, 17 anos. Honduras.

Esta mensagem tem tido cada vez mais ressonância. “O primeiro compromisso que deve ser obtido é o das gerações
atuais, para permitir que os jovens trabalhem plenamente em suas comunidades, para aprender, perguntar e proteger os recursos hídricos,” disse Marlitt Puscus, governadora indígena na região de Cauca na Colômbia, ao indicar que a juventude
indígena está ligada de forma natural com a água e a natureza, ao passo que aqueles jovens criados em outras regiões não
têm este vínculo.
Estamos unidos à água, e ela nos une porque é vida. Todos os seres humanos precisam deste recurso vital e estratégico
para o desenvolvimento dos povos. Esta realidade exige que a sociedade como um todo estabeleça ações necessárias para
garantir que a água - e a vida que dela depende - possam ser conservadas para as gerações atuais e futuras. Não se pode
deixar de compartilhar com os jovens uma das principais conclusões reveladas pela organização WWF no seu Relatório Planeta
Vivo: a Terra excedeu sua capacidade de reposição dos recursos naturais para as demandas humanas em 30% desde
2008. Atualmente consumimos recursos naturais equivalentes a 1,3 planetas por ano.

“Talvez o cenário que devamos corrigir é o adultocentrismo, em que os adultos acreditam ter as respostas e as soluções.
Esquecemos que são as novas gerações que têm uma maior consciência ambiental e esta é a ponte que devemos utilizar
para aproximá-los do setor hídrico. Sem dúvida nenhuma, eles o fariam de forma constante”, assinala Marcelo Encalada, representante da ONU-Habitat da Bolívia e gerente de novas formas de associativismo pela água que contribuam para comprometer os jovens de forma natural e orgânica na tarefa de zelar pelos recursos hídricos.

 

Somos nós, os jovens, que vão cuidar do uso da água no futuro; se a juventude não for ensinada, o futuro
não prometerá muito, porque apesar da grande quantidade de água em todo o planeta, apenas uma pequena parte pode ser usada para consumo. Deve ser criada a cultura de uso da água e sua reutilização, quando isto for possível. Cada dia ela fi ca mais escassa, tornando-se mais difícil levá-la aos locais de consumo.
Devemos salvar e tentar reutilizar a maior quantidade de recursos hídricos possível, porque se nada for feito agora, será tarde demais e só nos restará lamentar e dizer: por que não fiz isso antes?
Precisamos ser conscientes de que somos milhões e milhões de pessoas com a mesma necessidade de tomar banho, beber água, lavar as mãos, escovar os dentes e puxar a descarga do banheiro.
SANTIAGO BAÑUELOS, 15 anos. México.

 

 

Aprofessora na escola me ensinou o caminho que a água faz para chegar à represa, antes de vir até minha casa. Ensinou também sobre a importância da água para nosso uso. Eu faço algumas coisas todos os dias para não desperdiçar água: tomo banhos mais curtos, quando escovo os dentes não deixo a torneira aberta.
Em vez de lavar o quintal com a mangueira, uso um balde com água. São coisas simples que gastam menos recursos hídricos e que farão com que o mundo tenha mais água no futuro.
BEATRIZ ALVES SILVA, 10 anos. Brasil.

 

MÃOS A OBRA


“É preciso muita força de vontade, trabalho duro, e acima de tudo, conseguir um equilíbrio fi nanceiro, que permitam
ter os recursos econômicos necessários para ações de formação, treinamento e transferência de tecnologias para as
novas gerações, para que ajudem na consolidação dos objetivos de acesso, consumo e demanda de água”, comentou
Malva Rosa Baskovich, do Programa de Água e Saneamento do Banco Mundial.

“Estarão os jovens dispostos a se envolver neste esforço? São os jovens que vão cuidar do seu uso no futuro; se a juventude
não for ensinada, o futuro não prometerá muito, porque apesar da grande quantidade de água em todo o planeta, apenas uma pequena parte pode ser usada para consumo”, argumentou Santiago Bañuelos, um jovem de 15 anos, que vive no México.

Betty Soto, representante regional da organização Water for people (Água para os povos), sugere-nos como fazê-lo: “É
muito fácil. Devemos ter a clareza de que somos temporários e de que é nosso dever, como ocorre em todos os aspectos da 
vida, nos aproximar dos jovens. Não creio que falhamos em comprometê-los, visto que muitos jovens já estão trabalhando
pela água. O que não devemos fazer nunca é transformá-los em alienados, mas sim envolvê-los cada vez mais”. Por estas razões que os entrevistados sustentam que, como em outros aspectos da vida, é preciso depositar nas mãos jovens o futuro de um dos tesouros mais preciosos da humanidade: a água.

 

No presente deve-se cuidar da água, do mar e dos rios, para proteger as gerações futuras, porque a água é vida. Sinto-me responsável porque tenho que ajudar contribuindo com o cuidado da água. Recomendo à minha irmã e aos meus amigos para fecharem a torneira quando estão se lavando ou escovando os dentes, cuidando para que não haja nunca goteiras ou vazamentos. Aprendi que o ciclo da água consiste na evaporação da água do mar que sobe para as nuvens. Quando estas estão cheias, a chuva cai sobre o mar, rios, montanhas e se formam os picos nevados que logo derretem, levando a água para
os rios e, em seguida, desembocando no mar.
FÁTIMA CAVERO, 12 anos. Perú.



 

A vida começou na água e sem ela não há nenhuma vida. Na escola me ensinaram que a água deve ser muito bem cuidada, já que até 2050, se continuarmos desperdiçando-a, haverá uma grande escassez.
Em minha casa não colocamos remédios vencidos ou óleo na máquina de lavar louças, porque isso polui o mar.
Quando tomo um banho longo, também dou banho
no meu gato, porque aprendi que a água não deve ser desperdiçada. Tento sujar menos minhas roupas para usar menos detergente e apóio campanhas de proteção da água nas redes sociais.
LAURA GARCÍA ECHEVERRI, 12 anos. Colômbia.

 


COMPROMISSOS INTERGERACIONAIS

As autoridades regionais têm discutido e sistematizado seis níveis do compromisso entre as gerações para cuidar da água.

 
Fonte: Sétimo Diálogo Interamericano sobre a gestão integral da água. Ministério do Meio Ambiente, Habitação e Desenvolvimento Territorial da Colômbia. Rede Interamericana de Recursos Hídricos. 2011.



Na minha escola me ensinaram que a água é vital para os seres vivos, plantas e animais; que é útil para beber, cozinhar, lavar, apagar incêndios e regar as plantas. Tem dois nomes: H2O e água. Podemos vê-la como neve, gelo, granizo e quando cai das nuvens, além de estar nos rios, mares e lagos.
Minha professora, Isabel Pinto, ensinou-me na Semana da Ciência, que sem água não vivemos, é a primeira coisa para meu corpo. Ensinou-me que não devo desperdiçá-la, que devo fechar a torneira quando escovo os dentes, e que não devo jogar lixo nos rios.
STEPHANIE NICOLE CALVO, 7 anos. Panamá.

 

Eu seria a voz para alertar que não utilizemos água em demasia nas casas e escolas para nossas necessidades, bem como para que não contaminemos rios, lagos e fontes de água com resíduos, lixo e óleo.
Devemos proteger as árvores e as florestas, e procurar fazer campanhas de limpeza em rios, lagos e fontes de água.
SAMIR SAAVEDRA LÓPEZ, 10 anos. Nicarágua.

 

 

Ensinaram-me a importância da água na vida dos seres vivos, que é um recurso natural renovável e devemos cuidar dela. Aprendi isso na escola, em casa e em vários programas de televisão. A forma de cuidar da água é usando-a de modo racional, sem contaminar nossos rios e lagos, e cuidando de nossas florestas.JOSÉ MIGUEL DELGADO, 14 anos. Venezuela.

 

Autoridades latino-americanas fazem um balanço sobre o que
cumprimos ou não neste compromisso fundamental.

JUVENTUDE, DIVINO COMPROMISSO

MICHELLE BACHELET
Ex-presidente do Chile, diretora da ONU Mulheres.
“Os jovens de comunidades rurais, em especial aqueles que vivem em zonas com baixa densidade populacional, têm problemas pelo déficit de grandes infraestruturas no transporte e na energia, e pela falta de serviços críticos para a sobrevivência, como o fornecimento de energia e água. Por isso, devem se comprometer muito mais em melhorar essas condições”.

RIGOBERTA MENCHÚ
Prêmio Nobel da Paz de 1992.
“Agora a Mãe Natureza nos ensina de maneira generosa como cuidar dela e, especialmente, da sua alma que é a água.
Estamos todos empenhados em transferir esses valores ancestrais de geração em geração. Só desta forma poderemos
sobreviver e sermos gratos com nossa Mãe Natureza.”

OSCAR ARIAS
Ex-presidente da Costa Rica, Prêmio Nobel da Paz de 1987.
“As grandes transformações humanas são um imperativo no qual o trabalho mais esperançoso é aquele que realizam as
gerações de jovens. A força arrebatadora da juventude para gerar mudanças é o motor que deve alimentar a todos nós, a
fim de navegar no mar aberto da esperança. Devemos assinar e nos comprometer com um acordo global no qual declaremos a paz à natureza como nossa principal aliada na busca do bem-estar e do desenvolvimento. Neste pacto, os jovens devem ser o testemunho vital da mudança, e a água, a tela, transparente e maravilhosa, de onde flui a força constante na construção de um mundo novo e melhor.”

 

 

 

Pessoalmente sim, estou comprometido, já que todos os seres humanos são responsáveis por manter os recursos naturais do nosso planeta. Práticas de conservação como fechar a torneira para lavar a louça, as mãos e escovar os dentes, fomentam nos jovens um sentido de responsabilidade para a boa gestão da água.
A humanidade está comprometida com a conservação dos recursos hídricos, que devem ser protegidos para o bem das gerações futuras; os seres humanos de todas as faixas etárias devem enfatizar os cuidados dos recursos naturais e, acima de tudo, da água, que dá vida.
MAURICIO VARGAS, 16 anos. Costa Rica.

 

COMPROMISSO URGENTE

Houve uma falha na transmissão de um maior compromisso com os valores transcendentais
da água, o que nos deixa a responsabilidade de melhorar esta situação.

A Aqua Vitae participou do II Encontro de Gestores Comunitários da Água e Saneamento, em setembro de 2011, no Peru. Este grupo se dedicou a analisar os desafios presentes e futuros da água e do saneamento. Ao colocar em perspectiva o que foi feito e o que falta fazer, a atenção recai naturalmente nas novas gerações, como agentes fundamentais para continuar o trabalho. Estas são algumas das chamadas feitas.

Mirta Paez
Presidente da Federação Paraguaia de Companhias de Saneamento (FEPAJUS).
“Não se trata de analisar se falhamos ou não em envolver os jovens, o que devemos fazer é chamá-los a agir. Eles têm a força e o desejo de mudar o mundo, e que maneira melhor de fazer isso do que trabalhando pela água e pelo saneamento?
Esta é uma questão fundamental que eles são capazes de compreender.”

Jorge Tarzek
Vice-presidente da Pepsico América Latina, Brasil.
“A conscientização de comprometer as novas gerações com o setor de recursos hídricos deve começar a partir do setor
empresarial. E como fazemos isso? Com o exemplo, com a responsabilidade de sermos gestores eficientes no uso da água, promovendo programas e ações concretas, para financiar programas que tenham como desafio a água, as pessoas e a sustentabilidade”.

Carlos Enrique Juscamaita Aranguena
Vice-ministro de Construção e Saneamento do Peru.
“Os jovens não são o futuro do setor hídrico, são o presente. Eles estão comprometidos com o meio ambiente e devemos
nos esforçar para que assumam a proteção da água como uma questão de trabalho e uma realidade de compromisso. Até hoje não conseguimos envolvê-los”.

Reyna Galindo
Presidente da Associação Comunitária do Progresso do Século (ACEPROS) de El Salvador.
“Os jovens têm o entusiasmo, o impulso e a vontade de trabalhar. Mas muitas vezes são os adultos que não lhes dão 
confiança suficiente. Devemos mudar a nós mesmos, ajudando-os a se envolverem na proteção da água e a lutarem por suas comunidades

 

Eu aprendi a fechar as torneiras quando não é necessário deixá-las abertas. Sinto-me responsável, porque prejudica as despesas econômicas da minha casa e também o meio ambiente. Devo cuidar da água, para que no futuro não haja nenhuma escassez e para que as florestas não se transformem em desertos.
ANDRÉS DONIS, 15 anos. Guatemala.