AQUAVITAE

MARÇO 2012

OPINIÃO

VISÃO RURAL E LIÇÕES APRENDIDAS

VISÃO RURAL E LIÇÕES APRENDIDAS

É necessário desenvolver tecnologias para o setor de águas e saneamento junto com as comunidades que as usarão, pois assim receberão o mesmo “código genético”. Por INÉS RESTREPO TARQUINO, Diretora Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento em Abastecimento de Água, Saneamento Ambiental e Conservação dos Recursos Hídricos (CINARA), Colômbia.

Quanto dinheiro e esforços foram desperdiçados na busca do que chamam de “progresso” em nossos países? O desenvolvimento deve ser entendido de acordo com seu contexto histórico. Entretanto, o conceito de desenvolvimento que uma determinada sociedade deseja alcançar deve ser conquistado através de processos integrados. Por isso, todas as intervenções devem ser direcionadas para essa integração. A setorização institucional no tratamento das águas é uma das principais limitações para “somar-se” sempre a esse desenvolvimento. Infelizmente, a dinâmica da mudança que visa ao desenvolvimento humano sustentável em nossos países tem total dependência de entidades internacionais, não é uma
mudança que ocorra dentro de nossas próprias sociedades.

Por isso, a prática sem um marco conceitual que a apoie é um perigo real em relação aos “efeitos perversos das boas intenções”. E um marco conceitual sem fundamento na prática é inútil. Uma expressão desse fundamento na realidade dos marcos conceituais são as metodologias e tecnologias das intervenções, pelos quais as avaliações não deveriam medir
simplesmente os produtos, senão as metodologias das intervenções. As metodologias devem ser participativas (principalmente através de decisões), de modo que as tecnologias sejam fruto dessa participação, partindo do conhecimento local.

Entre a teoria da formação superior e a prática de sobrevivência das comunidades rurais há uma distância considerável. Os profissionais não têm formação para entender a totalidade dos problemas das famílias e dos assentamentos rurais, já que as soluções propostas causam mais problemas do que os já enfrentados pela comunidade.

É possível resolver boa parte da problemática da água nas zonas rurais – pelo menos, nos problemas que podem ser geridos localmente – com metodologias e tecnologias inovadoras, que partam do conhecimento da população. Um apoio fundamental nos processos participativos vem dos grupos focais tradicionalmente não reconhecidos (mulheres e crianças) e da supervisão desses processos por parte dos cidadãos. No entanto, os problemas gerados pelo contexto em que se encontra o nível local podem afetar as possibilidades de solução real dos problemas. Deve-se, então, participar com afinco da solução dos problemas locais. Assim, é necessário ajudar as comunidades rurais em seu papel de interlocução política devido à capacidade de influenciar as decisões sobre a gestão das águas em bacias, municípios, regiões e no país.

Em relação ao desenvolvimento tecnológico, deve-se recordar que as tecnologias têm o código genético da sociedade que as desenvolveu, em seus componentes físicos e operacionais. Por isso, é necessário desenvolver tecnologias junto com as comunidades que as usarão, pois assim receberão o mesmo “código genético” de tais comunidades e não gerarão o retrocesso causado por tecnologias provenientes de contextos distintos. A investigação aplicada e participativa e a inovação devem ser fomentadas na educação e em projetos de todos os níveis.

Toda a vida da comunidade rural depende do seu acesso à água, tanto para suas atividades domésticas quanto para as produtivas. De nada vale a terra sem água, fato do qual as comunidades rurais são conscientes. Além disso, é mítica a ideia de que as comunidades rurais descuidam da água e de sua preservação. A prática demonstra que são vários os fatores externos que influenciam o cuidado e a proteção da água, e tais fatores independem das comunidades.

Uma vez que é a vida da comunidade que depende da água, e não a vida dos funcionários públicos que desenvolvem os projetos, a priorização de uso tem diferentes vertentes. Além disso, é possível perceber nas comunidades uma visão de “água para a vida” muito distinta da “visão dos setores”,dos elaboradores de projetos e das organizações. A mudança de visão setorial levará muitos anos e depende de mudanças nesse sentido nas políticas internacionais e na formação conferida aos profissionais da área.

 

A Revista Aqua Vitae não emite nenhuma opinião sobre os critérios expressados nesta seção, entretanto, somos uma tribuna aberta a diferentes perspectivas em relação ao tratamento dos recursos hídricos.