
O ano de 2015 é a data limite defi nida durante a cúpula do milênio das Nações Unidas, realizada em setembro de 2000, para resolver os problemas mais urgentes que os países em desenvolvimento enfrentam.
O plano propõe reduzir à metade a proporção de pessoas sem acesso sustentável a água potável segura e sem serviços de saneamento. Hoje, quase seis anos depois daquela reunião, o doutor Asit K.Biswas, presidente do Centro do Terceiro Mundo para o Manejo da Água, entidade independente de pesquisas que trabalha com a questão das políticas hidráulicas em escala nacional, regional e mundial, vê tudo isso como uma utopia. “É quase impossível cumprir o objetivo proposto. A razão: pensa-se nas metas, mas não nas implicações”.
Do seu ponto de vista, na América Latina o abastecimento não é o mais crítico, mas sim o tratamento das águas. A isto acrescenta-se o fato de que os números ofi ciais sobre acesso ao precioso líquido não refl etem a realidade que os países enfrentam. E para completar, o manejo não adequado das instituições, a pouca capacitação e a corrupção complicam ainda mais a situação.
Entre 40% e 60% da água limpa são perdidos devido a problemas nas conexões e vazamentos
Então a pergunta obrigatória é: a América Latina poderá se encaminhar na direção correta? Para responder esta e outras muitas dúvidas vinculadas ao futuro da água, assunto de destaque nas agendas de governo, das ONGs, dos grupos ambientalistas e empresariais, o professor Biswas, um dos especialistas mais reconhecidos do mundo na questão do manejo da água, nos recebeu em seu escritório, no México, de onde atende o restante da região.
Qual é a realidade que a América Latina enfrenta quanto à distribuição e ao saneamento das águas? O que dizem os números?
Não temos dados fiéis da quantidade de pessoas que têm acesso à água ou ao saneamento na região. A informação que temos é dada pelos governos, que tentam mostrar que estão muito bem. Os números oficiais dizem que na América Latina são tratados 28% das águas residuais, mas se forem consideradas as plantas de tratamento que existem em nossos países, sua capacidade, e quais estão em funcionamento, nos damos conta de que a triste realidade é que apenas 8% das águas são tratadas.
Qual é o grau de desvinculação entre a questão do abastecimento e a do tratamento?
O que significa realmente ter acesso à água? Na cidade do México, teoricamente nós temos, mas não podemos bebê-la. É o segundo país do mundo em consumo de água engarrafada, com um total de 176 litros per capita. O problema na região não é o abastecimento. Nas zonas urbanas de 90% a 100% têm acesso; portanto a maior crise no manejo da água em anos futuros, muito provavelmente não estará relacionada com escassez, mas sim será o resultado dos problemas que são gerados diante da falta de interesse pela qualidade.
Mais de 99% da água usada nas casas é descartada como água servida. Esta água é descartada nos drenos ou nas fossas sépticas, onde existem; e quando não existem, nas áreas abertas, inclusive nas ruas. Isso contribui para que em locais onde o solo seja do tipo propício para a infi ltração, as águas sujas cheguem aos aqüíferos, os quais em algumas ocasiões representam as fontes de abastecimento das populações. São necessários investimentos de milhões e milhões de dólares, não apenas para desenvolvimento da infra-estrutura necessária para transporte e tratamento das águas de esgoto, mas para o desenvolvimento de um plano de manejo integral de águas servidas.
PERFIL É também um dos fundadores do Conselho Mundial da Água e é considerado o arquiteto do plano de ação de Mar del Plata para a Conferência da Água das Nações Unidas. Escreveu 67 livros e mais de 600 artigos nas principais revistas científi cas do mundo. Seu trabalho foi traduzido em 31 idiomas. |
Qual é sua opinião sobre os objetivos do milênio propostos na cúpula das Nações Unidas?
Os objetivos não são novos. Desde a década de 70 foram criadas propostas para melhorar a questão do abastecimento e saneamento das águas; na verdade, o que é proposto agora é menos do que tinha sido proposto no passado. A única diferença é que nos últimos anos o assunto se tornou mais popular, recebeu maior divulgação e publicidade.
Se recapitularmos, podemos ver que em 1976 nas Nações Unidas, durante a Conferência do Mundo, ficou estabelecido que para 1990 todo o planeta devia ter acesso à água limpa. De 80 a 90 foi a década de saneamento e disponibilidade de água. Mas chegou a data e os objetivos não foram cumpridos. O pior de tudo é que ninguém se perguntou por quê. Depois, em 2000, foram defi nidos os objetivos do milênio e voltaram a estabelecer grandes metas para 2015. O mais interessante é que os responsáveis por não terem sido cumpridas as metas da década passada são os mesmos que têm em suas mãos o projeto agora. Então, dá para imaginar o que vai acontecer.
Então, qual é a possibilidade de que os objetivos sejam cumpridos?
Existem diversas razões pelas quais é muito difícil que venham a ser cumpridas as metas do milênio. Na maioria dos países, de 40% a 60% da água limpa é perdida em conexões e vazamentos. Por outro lado, os organismos operadores estão em sua maioria em condições deploráveis e são controlados por pessoas que têm total desconhecimento do assunto. A administração da água é um assunto político em nossa região. Quando muda o partido no poder, muda o controle. Alguns diretores gerais desses organismos não estão há mais de 18 meses no poder; portanto não conseguem tomar decisões de longo prazo e quando tomam, não teriam tempo de executá-las.
Além disso, existem problemas no que diz respeito ao manejo integral dos recursos hídricos que, por infl uência francesa, estão organizadas através de bacias hidrográfi cas. Fizemos estudos e trocamos informações com diretores da Venezuela, Colômbia e Argentina que asseguram que o manejo da água por meio de bacias não funciona. No entanto, mudar a mentalidade vai levar tempo, embora o que importe aqui seja que pela primeira vez os setores envolvidos estão questionando este aspecto.
A maior crise futura com relação à água estará mais relacionada com a má qualidade do que com a escassez
Em nossa região quais são os países que lideram o processo?
Brasil e Chile são os que estão em melhor situação. No Brasil é gasto muito dinheiro no manejo dos recursos hídricos. De acordo com as estatísticas, 26% de suas águas são tratadas. Nesses países os dados são mais realistas e os diretores estão mais bem capacitados. A América Latina em geral está melhorando, mas de forma muito lenta. O mais importante é que os países identifi quem os problemas e a seguir as soluções, dependendo de sua situação específi ca, e não que apliquem receitas universais para seguir adiante.
Qual o país do mundo tem um manejo de água mais eficiente?
Singapura, acima dos Estados Unidos e de qualquer outro. A instituição que administra água presta contas ao Congresso, a única entidade que a controla. Nem sequer no aspecto fi nanceiro são dependentes do governo. A administração do recurso hídrico funciona como um negócio. Quando precisam de fi nanciamento para algum projeto, vão buscá-lo no mercado internacional e o fato de terem garantia do Estado, permite que obtenham baixas taxas de juros.
Qual a ligação entre a água e a pobreza?
Não existe nenhum estudo sobre a ligação entre água e pobreza, quantitativamente falando. Teoricamente muito é dito, mas não existem números que sirvam de confi rmação. Atualmente estamos discutindo um projeto com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no qual queremos determinar como o acesso da água infl ui sobre o fato de uma pessoa ser pobre ou não.

O Conselho Econômico e Social das Nações Unidas reconheceu o acesso à água como um direito humano fundamental. Qual é sua opinião?
É um mero formalismo. Eu acredito que não existe diferença em ser reconhecido ou não. Em todo caso, o que signifi ca isto? Alguém vai oferecer água grátis? A verdade no fundo é que nada vai mudar. Uma razão pela qual os Estados Unidos se opõem a declarar a água ou o alimento como um direito humano, é exatamente porque teriam a responsabilidade de proporcionálos, caso contrário estariam sujeitos a sanções legais.
Que conquistas obteve o Centro do Terceiro Mundo para o Manejo da Água na América Latina?
Nós estamos concentrados na geração, síntese, aplicação e divulgação do conhecimento. Acreditamos que não adianta nada inventar soluções sem antes conhecer a problemática. Um de nossos principais projetos foi a coleta de informação sobre o histórico hidráulico dos países da região. Dados que permitirão um interessante intercâmbio de conhecimento.
Por outro lado, estamos realizando atualmente um estudo que avalia o impacto das grandes cúpulas internacionais. Entrevistamos pessoas da área em 60 países e a resposta em 90% dos casos é que essas reuniões não motivaram nenhuma alteração no manejo hidráulico de seus países. É realmente triste, já que, só para mencionar um caso, na organização do 3o Fórum Mundial da Água realizado em Kioto em 2003, foram gastos 28 milhões de dólares.
Por esta razão, em uma reunião realizada em janeiro de 2005 com pessoas de muito alto nível, propusemos a reorientação destes encontros.

1. Em relação ao IV Fórum Mundial da Água, o que você
considera como os principais desafios para serem enfrentados pela América Latina?
Levando em consideração que não existe desenvolvimento humano sem o manejo do ciclo da água, alguns assuntos que estão no centro das preocupações do momento, na
América Latina e em todo o mundo são:
-
O financiamento da água, que exige decisões claras
em todos os níveis para que, de maneira definitiva
“as torneiras sejam mais importantes do que os fuzis”.
- O direito à água cuja expressão deve ser sem ambigüidades, mas cujas modalidades devem ser definidas
agora em função das especificidades nacionais.
- A organização institucional da água, com uma maior descentralização e respeitando o necessário equilíbrio
entre o papel regulador do Estado e a responsabilidade
das capacidades locais.
- A adaptação dos conhecimentos sobre a água e o fortalecimento das capacidades tecnológicas, para que no
final as transferências de conhecimentos e os programas de pesquisa se adaptem às particularidades e as
necessidades de cada comunidade.
- A noção de gestão de risco (risk management), um dos
cinco temas do fórum mundial que também foi colocado em especial evidência.
2. Para você, qual é o principal aspecto com relação à água
que as pessoas da América Latina devem resolver nos
próximos anos?
Você pergunta com relação à América Latina, mas na
verdade não há um único país no mundo que não tenha
problemas relacionados com a água. Atualmente é um
assunto universal. A prioridade atual, em nível mundial, é
proporcionar acesso à água e a condições de higiene convenientes aos 2 bilhões de pessoas que não têm a sorte de
poder se beneficiar destes serviços. A América Latina reúne
todos as situações e problemas que possam ser encontrados no mundo. Entretanto, se eu precisasse definir qual é o
maior desafio, diria que é o tratamento da água, porque o
rápido crescimento das mega-cidades requer que este assunto seja considerado prioritário. É um desafio de saúde
pública que vem antes do desenvolvimento.

3. Quais são as expectativas sobre os resultados práticos
do IV Fórum Mundial da Água?
Os fóruns sobre água não são conferências internacionais, são locais e momentos abertos a todos sem nenhuma
exclusividade, nos quais todos se reúnem para intercambiar, dialogar e propor. Um dos objetivos essenciais desses
fóruns é permitir estes intercâmbios e por sua vez a tomada de consciência sobre os grandes desafios da água no
mundo.
Evidentemente, espera-se um certo número de recomendações concretas, seja com relação aos cinco temas do Fórum, ou aos resultados dos diferentes grupos de trabalho (Task Forces) que foram constituídos (sobre o direito à água, o financiamento e a monitoração, entre outros) ou ainda dos encontros entre as coletividades locais, representantes e ministros.
4. Quais, na sua opinião, são as conquistas dos três fóruns
mundiais da água anteriores?
Seria longo demais para detalhar aqui tudo o que os fóruns anteriores trouxeram para a discussão da causa da
água. Digamos primeiro que permitiram que uns e outros
falassem do assunto. Foi também depois do fórum de Kyoto
que pela primeira vez o G8 incluiu o assunto da água em sua
agenda. Os fóruns não são momentos
ou locais onde são assinados tratados
internacionais. Não é este seu objetivo.
Os fóruns servem para fazer com que as consciências evoluam. Servem para testar idéias, trocar receitas entre as comunidades, os eleitos, os profissionais e outros. Os fóruns devem dar audácia, valor, esperança. É para isso que trabalhamos.
5. Quais são os aspectos mais importantes para reduzir ou resolver alguns
assuntos sobre a água na região
latino-americana? Processos políticos, assuntos tecnológicos, recursos
financeiros...?
A água tem a ver com todos os aspectos da vida cotidiana, mas as decisões
que devem ser tomadas são antes de
tudo políticas, no sentido da administração da cidade dentro de um marco
democrático. Por isso não deixamos de
insistir que as soluções encontram-se
primeiro em nível local.
6. Atualmente, o que é necessário
para melhorar o manejo do recurso
hídrico?
É necessário primeiramente fazer
com que se admita a idéia de que no
futuro vamos ter que mudar sensivelmente a nossa relação com o uso
da água. Nas próximas décadas, uma
regra irá se impor: desperdiçar menos
água e administrá-la melhor. Estes
dois aspectos estão totalmente ligados. Administrar melhor quer dizer
especialmente evitar as perdas consideráveis tanto na agricultura como
nas cidades, saber procurar sistematicamente os vazamentos e repará-los, e
quanto aos cidadãos, utilizar os avanços tecnológicos para cozinhar, lavar, regar o jardim, enfim em todas as atividades em que água seja um fator davida cotidiana. Isso nos levará a considerar água, se ainda
não for o caso, como um recurso limitado. Isto também deverá nos obrigar a colocar mãos à obra em todos os aspectos possíveis para dispor dos recursos hídricos em todos oslugares onde estão presentes no mundo.
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Loïc Fauchon desempenhou diferentes cargos, tanto no setor público como no privado. Desde 7 de janeiro de 2005 é o presidente do Conselho Mundial da Água, onde havia anteriormente ocupado a vice-presidente e teve o cargo de assessor da presidência. Foi presidente do Groupe Eaux de Marseille, o quarto maior grupo francês no setor da água, especializado no fornecimento de água, esgoto, manejo de resíduos sólidos, iluminação pública e serviços urbanos de administração de software. Fauchon é formado pelo Instituto de Ciências Políticas e da Escola de Economia de Aix-enProvence. Antes de entrar no grupo, desenvolveu uma longa carreira no setor público, onde exerceu cargos em diversas organizações. Desde 1977 é presidente da organização não-governamental que ele criou para missões humanitárias na região subsaariana da África, e desde 1997 é vice-presidente do Instituto Mediterrâneo da Água. Em 2003 foi condecorado com a Chevalier of Legion of Honour. |
7. O que você acredita que os latino-americanos poderiam
fazer para ajudar nos assuntos mundiais da água?
Como em todos os países em vias
de desenvolvimento, o que os latino-americanos devem fazer é exigir dos
que tomam as decisões, que dêem
prioridade ao acesso à água, para que
seja uma realidade concreta, visível e
proveitosa para todos.
8. Alguns países da América Latina, como o México, Guatemala e El Salvador, foram devastados por desastres
naturais como inundações, e a região
mostra uma situação de vulnerabilidade a estes acontecimentos. O que
os latino-americanos necessitam para
prevenir ou evitar efeitos piores no
futuro?
Como eu disse, a noção de risk management hoje em dia é um assunto
importante e que foi centro dos trabalhos do IV Fórum. O assunto das tempestades tropicais e inundações deve
ser reconsiderado em um contexto de
evolução climática complexa, cujos
contornos continuam sendo ainda
muito incertos, e dependentes de ciclos curtos e de episódios instantâneos.
Por esta razão sua dimensão é mal
avaliada, favorecendo evidentemente
a ocorrência de situações extremas.
Nossos meteorologistas estão um pouco desorientados e as conseqüências financeiras são extremamente elevadas. O homem não pode evidentemente prever tudo, mas deve tentar preparar as populações, assim como os equipamentos essenciais para enfrentá-los. Neste sentido, diversos países da região, do Caribe e do México, implantaram um dispositivo de prevenção e de alerta que permitiram limitar as perdas humanas.Tudo isso tem um preço e vai custar caro. É preciso falar claramente, sem esconder nada das populações afetadas.
9. Por outro lado, qual sua opinião sobre o processo de privatização dos serviços de água em alguns lugares, inclusive na América Latina?
Eu gostaria, antes de mais nada, que fôssemos muito
claros e precisos com relação aos termos. O que quer dizer
privatização de um estabelecimento ou de uma sociedade?
É a venda de seus ativos, de tudo o que constitui seu valor: bens, e imóveis, equipamentos, redes, a clientela. Este nunca será o caso no que diz respeito à água, em que o responsável pelo serviço público, Estado ou coletividade, delega
este serviço durante um determinado período ou em umdeterminado perímetro. Devemos então falar de concessão, e mais freqüentemente de arrendamento ou de gerência.

Os recentes fracassos de relação entre autoridade pública e empresa privada foram devidos, antes de mais nada, à ambigüidades conscientemente mantidas de parte a parte. Se nos unimos a um sócio, independentemente de sua atividade, cada um deve encontrar seu interesse nesta associação. E para tanto é necessário que exista uma confiança mútua. Mas temos que deixar de fazer a população acreditar que recorrer a uma empresa vai mudar alguma coisa. É falta de respeito e não é aceitável. A colaboração entre o público e o privado exige idéias claras, valor político e conhecimento. É premissa inicial. Depois disso, o caminho a percorrer é longo.
10. Onde você considera que os países vão encontrar
dinheiro para reduzir a pobreza em 2015, assim como
recursos financeiros para construir sistemas de fornecimento de água?
É preciso dizer a verdade, dizer ao povo que o tratamento da água, seu transporte, sua distribuição, têm um custo. Quer seja um Estado rico que assuma uma parte desse custo, ou que não seja, de uma forma ou de outra é o cidadão
quem pagará. Então é uma questão de prioridades que devem ser ordenadas de forma hierárquica.
Você não percebe quando
está gastando dinheiro demais com o automóvel ou com
o telefone?
Sem falar, é claro, dos orçamentos militares. E aqui está o papel principal de nosso conselho mundial: persuadir e convencer que é necessário inverter a ordem
de prioridades e tornar água e o tratamento o primeiro dos
bens públicos que é necessário proteger, valorizar e aportar em qualquer parte do mundo. Mas não faremos esse
questionamento econômico, a não ser com a finalidade de
satisfazer antes de tudo as necessidades essenciais da humanidade.

Abel Mejía, que concedeu uma entrevista a Aqua Vitae, refere-se às múltiplas necessidades existentes na região, no campo do investimento em infra-estrutura de água e saneamento, e aos diferentes modelos que se mostraram viáveis para alguns países, e assegura conhecer experiências bem-sucedidas, tanto do setor público como do privado.
Esta busca de diferentes opções para incrementar e melhorar os serviços de água e saneamento na América Latina favorecerá que os países da região reduzam a falha indicada nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, o que para Mejía já é uma importante conquista para a região.
1 – Que tipo de recursos os países da América Latina deveriam utilizar para o financiamento da infra-estrutura necessária para seus serviços de água e saneamento?
Em primeiro lugar eu gostaria de comentar
sobre as necessidades de investimento,
e depois como financiá-las. As necessidades de investimento da infra-estrutura
de água e saneamento são diversas.
Muitas vezes não se tem a perspectiva sobre tudo o que implica a expansão de coberturas por meio de redes e conexões domiciliares de água potável e esgoto. Estas conexões necessitam tubulações, matrizes de água, interceptores e coletores
de águas servidas, tanques de armazenamento
para regular a operação, plantas de tratamento, estruturas hidráulicas de armazenamento e regulação, represas, equipamentos de controle e medição, equipamentos e partes para a manutenção
etc.
Todos estes elementos formam os ativos que permitem a operação dos serviços de água e saneamento. Tais ativos na América Latina são estimados na faixa de US$ 2 mil a US$ 2,5 mil por conexão, nas cidades latino-americanas com serviços integrados (incluindo tratamento de águas servidas) e coberturas superiores a 95% da população em ambos os serviços. Estes ativos também necessitam investimentos de manutenção e reabilitação importantes que, infelizmente, são muitas vezes subestimados ou simplesmente esquecidos, o que provoca deficiências de serviço e eventualmente reparações muito dispendiosas no futuro. Atualmente, o investimento, tanto da expansão como da manutenção dos ativos, estima-se que pode ser da ordem de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) em países como o Brasil, que já têm altos níveis de atenção da população urbana.
Lamentavelmente, na maioria dos países, o investimento está entre 0,2% e 0,5% do PIB. Estes níveis de investimentos são insuficientes para atender a toda a população e para manter adequadamente os ativos necessários para o serviço de água e saneamento. O financiamento deste investimento tem duas origens: as tarifas pagas pelos usuários e os subsídios que o Estado transfere. Em poucos países as tarifas cobrem os investimentos em sua totalidade. Em muitos outros nem sequer cobrem os custos de operação e manutenção.
Em geral, calcula-se que as tarifas deveriam cobrir uma parte importante dos investimentos.
Algumas instituições financeiras recomendam que as tarifas devem cobrir 30% dos investimentos e o restante mediante subsídios, consideradas as grandes externalidades positivas que estes serviços geram, particularmente em saúde e qualidade
ambiental. Em todos os países, o grosso do investimento em água potável e saneamento é público, por isto a qualidade
do gasto público nestes investimentos
é possivelmente o elemento mais importante a levar em consideração. Por isto, o planejamento adequado dos investimentos e a transparência dos processos de contratação pública são elementos essenciais
para garantir a eficiência e também
a eqüidade na aplicação dos recursos públicos.
Os governos, por sua vez, utilizam transferências orçamentárias para o financiamento de obras ou para cobrir as contribuições ao investimento das famílias de menores recursos, como é o caso do Chile. Também podem recorrer ao mercado de capitais para financiar projetos de longo prazo, solicitar financiamento de longo prazo de instituições financeiras como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) ou o Banco Mundial (BM), por meio de contratos de investimento ou gestão com o setor privado. Também existem experiências limitadas de investimentos privados vinculados a projetos urbanísticos, ou ampliação de serviços mediante a exploração privada de aqüíferos, como é o caso do Paraguai.
2 – Você considera importante a
intervenção privada?
Eu a considero importante, mas não essencial, e em muitos casos não é viável por razões legais. Além disso, a intervenção
privada pode ter muitas formas, dependendo do nível de risco que se deseje transferir ao setor privado, incluindo
contratos de serviço, delegação de gestão com investimento, concessões que transferem o risco empresarial e de investimento a um particular, até a venda de ativos. De qualquer maneira, a intervenção
privada deve ser precedida por uma grande clareza sobre os contratos e um sistema regulatório com credibilidade.
A intervenção privada é também importante porque é uma forma a mais de financiar e operar serviços de água e saneamento, que pode ter incentivos fortes para acelerar os investimentos e melhorar a eficiência na gestão dos serviços por meio de relações contratuais entre os setores público e privado e uma adequada regulação pública. É importante ressaltar que a intervenção privada é simplesmente uma solução a mais para um problema que é eminentemente público. Existem modelos muito bem-sucedidos de intervenção privada em países como Chile, Argentina e Brasil. Mas também há modelos de gestão pública muito bem-sucedidos, como é o caso das empresas de água e saneamento de cidades como Medellín, Monterrey, São Paulo, Curitiba, Santa Cruz, Lima, entre outras. A intervenção privada é importante porque geralmente ajuda a melhorar a informação e transparência da gestão, introduz mecanismos de governabilidade que permitem o planejamento de longo prazo e não deixa os investimentos e serviços sujeitos às oscilações políticas, que em muitos casos afetam negativamente as decisões gerenciais sobre o investimento e a gestão.

Abel Mejía (direita) foi um dos expositores durante o IV Fórum Mundial da Água.
Na foto ao lado de Cristóbal Jaime Jáquez, Diretor Geral da Conágua e Abel Madani, Ministro da Água da Bolívia.
3 – Qual é o principal desafio, em termos de financiamento, que os países
da região latino-americana têm para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, na questão da água? Você acredita que estes parâmetros chegarão a ser cumpridos?
A maioria dos países de América Latina
cumprirá os Objetivos do Milênio em termos de redução do déficit em conexões
melhoradas de água e saneamento básico. Isto parece um paradoxo, considerando
os baixos níveis de investimento na região. A explicação é que a ampliação de conexões não leva em consideração a qualidade sanitária da água e nem a pressão
e continuidade dos serviços.
Muitos latino-americanos têm conexões,
mas com água intermitente e com qualidade duvidosa. Por isso a mortalidade
associada a infecções de origem hídrica continua sendo notavelmente elevada na América Latina. Isto afeta particularmente a população mais vulnerável:
as crianças, os idosos e os pobres. Mais de 25% do custo de saúde tem sua origem em enfermidades relacionadas com a má qualidade da água. Um terço da mortalidade infantil tem sua origem em diarréias.
O custo em saúde relacionado com enfermidades gastrointestinais está na ordem de 0,7% do PIB em países como Peru e Colômbia. Paradoxalmente, representam um valor equivalente aos investimentos necessários para assegurar uma cobertura de água e saneamento de 100%. No entanto, campanhas de higiene pessoal e lavagem das mãos têm tido uma acolhida cada vez maior. Estas intervenções, em termos de custo-eficácia, são as mais promissoras para reduzir os impactos na saúde do mau serviço de água e saneamento. Em resumo, os Objetivos do Milênio em água serão alcançados, mas com um impacto mínimo na redução do custo em saúde, relacionado com enfermidades gastrointestinais.
Ambiente e desenvolvimento Abel Mejía Betancourt, nasceu na Venezuela, país onde se formou como engenheiro civil na Universidade Católica de Caracas. Fez também uma licenciatura em desenvolvimento econômico na CEPAL, no Chile, e mestrado em gestão de engenharia civil e outro em engenharia industrial, na Universidade de Stanford. É um grande conhecedor da realidade da América Latina, onde participou na maioria dos países em diversos projetos, entre eles alguns nos setores de água e energia. Desde 1999 é gerente da Unidade de Meio Ambiente para América Latina, onde, entre outros, está muito relacionado com a questão hídrica. |
4 – Você não acredita que ao privatizar total ou parcialmente os serviços de água e saneamento, a água poderia ser transformada em uma mercadoria?
Não creio. Como eu mencionei, a intervenção privada pode assumir muitas formas, dependendo do risco que o setor
público queira transferir ao privado, e definitivamente não deixa de ser uma solução a mais, privada neste caso, para um problema que é, e continuará sendo,essencialmente público. A água como mercadoria é a água que se vende engarrafada,
a que se vende como refrigerante ou cerveja. Apenas como referência, um litro de cerveja necessita 9 litros de água em sua produção!
Estes itens aumentam suas vendas em 10%, 20% ao ano, em grande parte devido à necessidade de contornar a má qualidade sanitária da água dos serviços em redes. Acredito que a participação privada na prestação de serviços de água e saneamento, de forma total ou parcial, pode trazer benefícios muito importantes para acelerar investimentos e melhorar a qualidade da gestão. Isto não é possível sem um marco legal e regulatório adequado, o que em muitos países ainda não é uma solução viável.

5 – O que aconteceria com o direito à água nestas condições?
O direito à água sempre está no domínio
público, por isto não é afetado. Se existirem as condições para uma participação
privada, que interesse ao setor público,
esta precisa contar com marcos legais e regulatórios adequados que protejam os interesses dos usuários e garantam a execução
dos contratos. Por exemplo, no caso de Chile, a população mais vulnerável é protegida com subsídios diretos que complementam
a tarifa até um limite que seja exeqüível, que em geral estima-se que não passe de 2% da renda mínima.
6 – Como você vê que organismos internacionais contabilizem o investimento
como despesa?
Imagino que isto se relacione com a forma como é contabilizado o déficit/superávit
primário de acordo com o FMI. Em alguns países tentou-se retirar os investimentos
em água e saneamento desta contabilidade como um mecanismo para aumentar o investimento público em níveis
superiores do PIB.
Esta discussão é importante e, na minha
opinião, uma porcentagem dos investimentos
deveria ser excluída do cálculo
do déficit primário para dessa forma levar em consideração seu impacto em saúde e mitigação da pobreza.
7 – Alguns setores qualificaram o Banco Mundial como promotor da privatização. Qual sua opinião a este respeito?
Na década de noventa a privatização foi percebida como uma solução exclusiva.
Esta visão mudou. A privatização é vista atualmente como uma solução dentro de uma série mais ampla de opções, onde o financiamento público eficiente tem prioridade. Além disso, o investimento privado em água nunca se materializou aos níveis previstos, e o investimento público se mantém como a principal fonte de financiamento dos serviços de água e saneamento.
8 – Como você avalia os grupos que se opõem à chamada privatização
da água?
Têm um grande valor. Elevaram o nível
da discussão e do debate. Fizeram com que as empresas públicas sejam mais transparentes.
Ajudaram a corrigir o curso e afinar as opções para melhorar a prestação dos serviços de água e saneamento. Todos estão de acordo com os princípios de Dublin
em que se reconhece o valor econômico
da água, a responsabilidade social e institucional e o compromisso com o meio ambiente e com as gerações futuras inédito até agora.
FINANCIAMENTO DOS SERVIÇOS DE ÁGUA E SANEAMENTO NA AMÉRICA LATINA O fornecimento de serviços de água e saneamento na América Latina representa para cada um dos países desta região uma série de importantes desafios quanto aos aspectos sociais, políticos, de recursos hídricos, com implicações econômicas muito importantes. Por isto, e diante da meta dos países de reduzir a quantidade de pessoas sem acesso à água em 2015, assim como os que não contam com serviços de saneamento, é que a Aqua Vitae, em seu afã de gerar o debate e oferecer informações úteis para a discussão dos principais problemas relacionados com a água, apresenta a seguir três artigos nesta seção, que pretendem analisar, a partir de uma ótica objetiva, qual foi o papel dos diferentes setores da sociedade na consecução destes objetivos. Da mesma forma, apresentamos uma experiência em Montería, na Colômbia, onde com recursos de diversos setores foi possível resolver o problema do acesso à água para uma população de origem pobre. |
"A luta dos povos pela recuperação de seus recursos é uma realidade". Cortesia Ministério da Água
Como nasceu a idéia de criar um Ministério
da Água em seu país?
O Governo da Bolívia, no marco de sua
política voltada à recuperação dos recursos naturais
e à proteção dos setores sociais menos favorecidos
da população, incluiu na lei Estrutura Organizacional
do Poder Executivo (LOPE) o Ministério
da Água.
Um dos mandatos do Ministério é "formular
e executar uma política integral e sustentável
dos recursos hídricos para garantir o direito
humano de acesso à água de toda a população e
preservar o meio ambiente respeitando a diversidade
cultural".
Constitui-se no primeiro do gênero no
continente, e pretende encarar importantes
transformações no setor, na perspectiva de promover
e coordenar a elaboração de um ordenamento
jurídico que desenvolva mudanças
legais tendentes a priorizar o investimento em
serviços de água que beneficiem as populações
mais vulneráveis.
Neste sentido, promover o acesso à
água como um direito humano e a transformação
das políticas que promovem a privatização
da água são as principais tarefas do
Ministério, no marco de um manejo integral e
sustentável dos recursos hídricos e dos serviços
associados, para garantir o acesso à água de
toda a população.
Como foi a transição de ser um dirigente
popular a fazer parte do gabinete de um
Governo?
Lutar pelo que é justo e por meu país
foram os maiores estímulos para o desenvolvimento
de minha trajetória como dirigente ao
longo da minha vida. Independentemente do lugar
e/ou do trabalho que desempenhe, este ideal
prevaleceu, junto com o apoio da minha família.
Um dos principais desafios como
dirigente da Federação de Juntas Vicinais de El
Alto (FEJUVE) foi a luta contra a privatização dos
serviços de água potável e esgoto, para benefício
da população com menos recursos.
Sendo um governo de mudança, nosso
companheiro Evo Morais convocou pessoas
comprometidas com o projeto e me honrou ao me convidar para me encarregar do Ministério
da Água, uma instituição nova
para o contexto boliviano.
Tenho um desafio muito grande
porque implica levar adiante a política
hídrica em todo o meu país.
Quais você considera as principais
funções que um Ministério da Água
deve cumprir?
Nossa missão é "satisfazer as
necessidades que a população tem de
água em quantidade e qualidade suficientes,
tanto para seu consumo como
para suas atividades produtivas, respeitando
o meio ambiente, a biodiversidade,
as formas naturais de organização
dos povos e das comunidades indígenas
e camponesas; implantando uma gestão
integral que melhore a disponibilidade,
o acesso eqüitativo, solidário, universal e
de qualidade aos recursos hídricos e aos
serviços associados a eles no país".
Segundo a nova visão de uma
Bolívia digna, soberana e democrática
para o contexto "viver bem", o conceito
e a visão sobre a água e sua gestão se
fundamenta na possibilidade de recuperar
a capacidade de uma relação respeitosa
e amável com a natureza e na sociedade,
donde a água deve ser um
fator de racionamento em harmonia
e integração.
PERFIL Um líder comunitário Inaugurou um Ministério que sem dúvida irá surpreender o continente. E antes de chegar ao Gabinete do presidente Evo Morales, o boliviano Abel Mamani, Ministro da Água, encabeçou a Federação de Juntas Vicinais da cidade de El Alto, uma das mais populosas da Bolívia. Foi seu líder em janeiro de 2005, quando um protesto popular contra a filial boliviana da empresa francesa Suez obrigou o Presidente de turno a cancelar a concessão outorgada à empresa por 40 anos. Ela havia sido acusada de descumprir seus compromissos de investimento em El Alto. Mamani ainda não completou 40 anos. Antes de ter carteira ministerial, dedicou-se à carpintaria. Não completou seus estudos universitários de Odontologia. Hoje tem o poder de decisão sobre a água. |
Quais você considera que tenham
sido as principais conquistas de seu
Ministério um ano depois de
sua criação?
A criação do Ministério da Água
e a relevância da temática do recurso
hídrico causaram expectativa e disposição
para cooperar, tanto por parte
de organismos internacionais como da
sociedade civil e organizações sociais.
Em seu primeiro ano enfrentou desafios
importantes. Trabalhamos na construção
de uma nova visão da água: como fator
de unidade e integração, seu acesso como
direito humano, no marco de uma gestão
integral dos recursos hídricos considerando a
bacia como um espaço de vida.
Além disso, estão sendo estabelecidas
as bases para a gestão integral
de recursos hídricos priorizando o consumo
humano, a alimentação (refiro-me
à irrigação), as necessidades da flora e
da fauna e outros usos.
O início das atividades do
Conselho Interinstitucional da Água
(CONIAG) - cujo propósito é a elaboração
da Política Nacional de Recursos Hídricos
e o anteprojeto da Lei Marco da
Água - está sendo encarado como missão
prioritária.
Que outros projetos vocês têm em
andamento, relacionados a serviços
básicos?
Foi concluída a auditoria técnica
do contrato de concessão de Águas
de llimani S.A., que determinou que não
cumpriu plenamente o contrato, e foi
iniciada uma série de negociações entre
a empresa e representantes do Governo,
tendo como resultado a conclusão de
suas operações em dezembro de 2006.
Tudo isto de comum acordo, sem chegar
a arbitragens internacionais e sem colocar
em risco o serviço de água potável
nas cidades da Paz e El Alto.
Por outro lado, foi formada
uma Comissão Interinstitucional, com a
participação de prefeituras, Governo e
sociedade civil, que está trabalhando,
sem colocar em risco o abastecimento
de água potável, na construção do modelo
de empresa para as cidades de La
Paz e El Alto. Os princípios da nova empresa
pública são eficiência e sustentabilidade;
eqüidade e solidariedade; participação
e controle social e transparência
da gestão.
Outro avanço, através do Viceministério
de Bacias e Recursos Hídricos
foi obtido com o Plano Nacional de Bacias, no qual são priorizados 12
projetos: dois para Cochabamba, dois
em Potosí, dois em Chuquisaca, um em
Santa Cruz, três para La Paz e dois em
Oruro. Quanto a irrigação, no ano
passado foram aprovados regulamentos
para sua promoção e apoio.

A gestão hídrica boliviana busca respeitar as formas naturais
de organização dos povos
e das comunidades indígenas e
camponesas. Cortesia Ministério da Água
Que projeções tem o Ministério para
cumprir com os Objetivos de desenvolvimento
do Milênio (ODM), na
questão da água?
Sabemos que o país comprometeu-
se, junto a outras 189 nações do
mundo, a reduzir a extrema pobreza
pela metade, até o ano 2015; nós não
esquecemos disso, e acreditamos firmemente
que uma forma de combater a
pobreza é dando acesso de água e saneamento
básico à nossa gente.
Pretendemos conseguir um aumento
substancial no acesso aos serviços
de água potável, esgoto sanitário e
saneamento básico em geral, no marco
de uma gestão integral dos recursos hídricos
com enfoque nas bacias. Estão
sendo providenciados recursos para poder
cumprir com os investimentos que o
setor necessita.
Você foi um dos promotores, em
âmbito internacional, para que a
água seja considerada um direito, e
de controle público. Que conquistas
você destacaria, e que expectativas
você tem com relação a esta luta?
No IV Fórum Mundial da Água,
como Ministro da Água da Bolívia, expus
perante o Plenário o conteúdo do documento "Declaração Complementar no
Marco do IV Fórum Mundial aa Água",
que foi assinado por Bolívia, Cuba, Uruguai
e Venezuela. Nele é estabelecido
que o acesso à água, em qualidade,
quantidade e eqüidade é um direito humano
fundamental e que os Estados
devem torná-lo efetivo em seus países.
Também foi manifestada a
preocupação pelos impactos negativos
que os instrumentos internacionais possam
ter sobre os recursos hídricos, como
os tratados comerciais; além de reafirmar
o direito soberano de cada país para
regular os usos e serviços da água, faz
um apelo para que sejam cumpridos os
compromissos assumidos para assegurar
o acesso à água e pedir a inclusão do
Fórum Mundial da Água no marco do
sistema multilateral.
Estamos trabalhando para que
todos os governos do mundo aceitem e reconheçam a água como um direito
humano. Foi apresentada a proposta
boliviana de "Direitos Humanos e Acesso
à Água" ao Alto Comissariado das
Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Uma forma de combater a pobreza é dando acesso à água e saneamento
básico
à nossa gente", defende Mamani. Cortesia Ministério da Água
Em quais outros campos vocês estão
trabalhando para promover a água
como direito humano fundamental?
Foi proposta a criação da
Agência das Nações Unidas para a Água,
além de uma Comissão da Água que
seja formada pelos países do norte e sul
do hemisfério, com o propósito de dar
continuidade e seguimento às determinações
que forem assumidas nesta Primeira
Assembléia Mundial de Cidadãos
e Parlamentares pela Água.
Estamos trabalhando no projeto
de resolução "Água como direito humano
fundamental", que foi discutido no
XXXVII Período Ordinário da Assembléia
Geral da Organização dos Estados Americanos,
em junho deste ano, sobre a
base da proposta boliviana realizada em
2006. Em agosto de 2006 foi assinada a
IX Ata da Comissão Mista Hispano Boliviana
de Cooperação, na qual a delegação
boliviana mostra a importância da
gestão da água dentro das linhas estratégicas
de seu governo.
Além disso, uma das atividades mencionadas neste acordo é a participação
da Bolívia na Expo Zaragoza 2008,
na Espanha, que tem por objetivo trabalhar
sobre a base de que a água é um
elemento imprescindível para a vida; e
como objetivo e finalidade, o desenvolvimento
humano desde o compromisso
ético da sustentabilidade.
O Governo boliviano se propôs, desde
o início de sua gestão, nacionalizar
as empresas que controlam
recursos naturais. Em que processo
se encontram com relação à água?
O impacto das medidas de
privatização sobre o patrimônio social e
público do país e sobre os direitos de
gestão das comunidades camponesas,
indígenas e originais, obrigou a população
a defender seus direitos sobre as
fontes de água que usava tradicionalmente,
com mobilizações, greves cívicas
e outros enfrentamentos contra o governo
da época. O principal conflito
ocorreu em Cochabamba com a chamada"guerra da água" em 2000, No final
de 2004 uma nova crise ocorreu nas cidades
de El Alto e La Paz para concluir o
contrato com Águas do Ilimani S.A.
O Ministério da Água enfrentou
importantes transformações no setor, na
perspectiva de promover e coordenar a
elaboração de uma base jurídica que
ofereça maior segurança às comunidades
indígenas e camponesas, sobre
fontes de água, e desenvolva mudanças
legais para priorizar o investimento em
serviços de água. Terminar com a privatização
dos serviços da água potável tornou-
se realidade com a finalidade da
operação de Águas do Illimani.

O Ministro Abel Mamani, o segudo a partir da esquerda, entre o Gerente da EPSAS (Empresa Pública Social de Água e
Saneamento) e um Sub Prefeito de El Alto, inauguram obras de esgoto. Cortesia Ministério da Água.
Em que etapa se encontra a criação
de uma empresa pública que controle
os serviços de água? (depois da
saída de Águas de Illimani)
A Comissão Interinstitucional,
com a participação de Prefeituras, Governo
e sociedade civil, está trabalhando
na constrição do novo modelo da Empresa
Pública Social da Água e Saneamento
(EPSAS).
Existe quem considere necessária a
participação privada no manejo dos
serviços de água, devido aos altos investimentos
necessários. Onde a empresa
estatal prevê obter os recursos?
Segundo a nova concepção, os
serviços devem garantir o abastecimento
à população com níveis tarifários razoáveis
que permitam recuperar os custos,
evitando sobrecarregar os usuários e ao
mesmo tempo buscando qualidade,
transparência, solidariedade e participação
social no planejamento e na tomada de
decisões estratégicas, entre outros objetivos.
Com relação à nova Constituição
de seu país, como vai a reforma
para que a água seja considerada
um direito humano e seja administrada
por empresas públicas?
As propostas de reforma da
Constituição, discutidas na comissão 14
de Recursos Hídricos e Energia da Assembléia
Constituinte, declaram a água
como direito humano fundamental. E
não é de espantar, porque na Bolívia
existe a consciência social de que a água
é um direito humano, e este compromisso
evidencia-se em usos e costumes das comunidades
camponesas, indígenas e comuns.
Na Bolívia existe uma relação
estreita da sociedade com a água que
pode ser considerada como uma permanente
busca de harmonia. Em um contexto
cultural, a água é também um ser
vivo e parte da natureza, provedor de vida,
harmonia e base do ser humano e
de sua vida, portanto, não pode ser apropriado,
nem se pode impedir alguém de ter acesso a ela. A água também é
uma expressão de flexibilidade e reciprocidade,
permite a articulação da
natureza com as sociedades humanas.
Em quê etapa se encontra a aprovação
da nova Lei Geral da Água?
Está na fase inicial; estamos
concluindo a política hídrica nacional,
que será a base da nova Lei da Água.
Qual você acredita que será o futuro
da iniciativa que pretende criar uma
instância, similar à OPEP (Organização
de Países Exportadores de Petróleo),
para a comercialização da
água em nível mundial?
A preocupação mundial sobre a
disponibilidade da água marcou os fóruns
e encontros internacionais. A água
transformou-se em um elemento cada
vez mais limitado, vulnerável e fonte de
conflitos, ao quê se somam os efeitos da mudança climática, situação que piora
devido ao manejo irracional que o ser
humano faz dos recursos naturais. Por
exemplo, este ano as inundações afetaram
grande parte do leste boliviano.
No modelo neoliberal e colonial
sobre a gestão da água eram priorizadas
as políticas e normas que estimulam sua
visão como um recurso com valor econômico
e sujeito à apropriação.
Existem muitas normativas internacionais
que reconhecem a importância
da água. Da mesma forma, a
consciência de que a água é um direito
fundamental, a cada dia ganha mais
importância em nível mundial, e a luta
dos povos pela recuperação de seus
recursos naturais, entre eles a água, é
uma realidade. Neste contexto não
haverá resultados positivos para uma
instância de comercialização da água.

Como um país tão pequeno como a Costa Rica
obteve a presidência de importantes fóruns
ambientais nas Nações Unidas?
Creio que é um reconhecimento ao país
pelos esforços que fizemos no passado e também
pelo compromisso tão forte e claro que
assumimos neste governo na questão ambiental.
Consideramos que todos os países do mundo têm uma responsabilidade compartilhada, embora diferenciada; acreditamos que não podemos resolver muitos dos problemas ambientais em nosso país a não ser que sejam resolvidos de forma global, como a mudança climática, espécies invasoras, contaminação transfronteiriça, contaminação das águas, os produtos tóxicos que vão para o mar, seja pelo lançamento de detritos nas costas ou por descargas feitas por navios, tudo isto representa ameaças, e é para isso que devemos ter uma ação internacional forte.
PERFIL
|
Dos fóruns dos quais participa no PNUMA,
como o senhor avalia a situação da mudança
climática para os países latino-americanos?
Os problemas são analisados em nível
global e em nível regional; inclusive vai haver uma
cúpula de presidentes da região centro-americana
sobre a questão da mudança climática no istmo e,
é obvio, a questão também está sendo analisada
em nível da América Latina, pois muitos destes
países são tremendamente vulneráveis, da mesma
forma que os centro-americanos.
A América Latina tem uma participação
relevante nas causas da mudança climática?
Não, são outros continentes que têm
maior incidência. A América Latina em seu
conjunto, com países tão grandes como Brasil,
Argentina, México e obviamente todo o resto,
contribui com apenas 4% das emissões de CO2;
os grandes emissores obviamente são os territórios
industrializados de maior tamanho, como os
Estados Unidos, a China, a Índia, Indonésia, Europa.
Então a América Latina por si só não pode
resolver o problema da mudança climática; tem
sua participação, mas o impacto que estamos.tendo é muito maior, porque os países
que estão nos trópicos, em particular, vão
ser mais vulneráveis do que os países que
estão no norte. Aqui há um problema de
eqüidade bastante importante, pois os
principais emissores de gases de efeito
estufa estão no norte.

Mitigar os gases do efeito estufa e aumentar a captura e armazenamento de carbono nas árvores é o
compromisso do programa "zero carbono", que a Costa Rica quer que seja repetido em outros países
latino-americanos. Foto: Região protegida da selva peruana by Tim Graham/Getty Images
E o que a América Latina pode fazer
para reduzir essas causas?
O que está fazendo a Costa Rica,
dando o primeiro exemplo, procurando
ser país neutro em carbono e com isso
fazer diferença nos fóruns internacionais,
mas ainda não há nenhum outro país da
América Latina que tenha anunciado que
quer ser neutro em carbono, apenas a
Costa Rica o fez, depois a Nova Zelândia,
depois a Noruega e agora o Vaticano está
prestes a anunciar esta intenção.
Então, o impacto que podemos ter fica bastante reduzido, uma vez que não se pode chegar nos fóruns internacionais e exigir que as emissões sejam reduzidas, quando nós mesmos não estamos dando o exemplo. Isto é o que nós chamamos liderar com o exemplo.
Quanto aos efeitos da mudança
climática, o quê se pode esperar da
região latino-americana?
Esperar épocas secas mais profundas
e prolongadas, épocas chuvosas
mais intensas, o que cria enormes destruições
de zonas agrícolas, infra-estrutura,
estradas, pontes, deterioração da
capacidade agrícola; por outro lado, deterioração
da pesca, da saúde, ou seja,
novas doenças infecciosas e respiratórias,
incluindo muitas delas como a malária e a
dengue, que estão retornando devido ao
aumento da quantidade de mosquitos, e
por isso não é apenas infecção nas
regiões costeiras, mas também nas zonas
mais altas; aqui na Costa Rica já temos
dengue na área metropolitana.
E isto está ocorrendo em todo o mundo, nos países do Cone Sul, é claro que o derretimento das geleiras está criando tremendos problemas, que vai inclusive criar problemas de disponibilidade de água, porque muita dela vem das geleiras e se elas derreterem, numerosas populações vão ficar sem água, e é evidente que também vai ter um enorme impacto sobre a biodiversidade.
Tudo isto já começou, a questão
vai-se tornar cada vez mais grave até por
volta de 2020, 2030, 2040, 2050. Por
exemplo, o Painel Intergovernamental de
Peritos sobre Mudanças Climáticas, da
Organização de Nações Unidas (Intergovernmental
Panel on Climate Change,
IPCC, conforme a sigla em inglês) publicou
seu relatório científico em fevereiro de 2007,
e as estimativas já estão sendo revisadas
porque o derretimento das geleiras e dos
pólos está sendo muito mais intenso do que
o esperado, e isso em relação a uma
estimativa que foi feita recentemente, ou
seja, o processo parece estar acelerando.
ENTRE AMBIENTE E ENERGIA O DR. ROBERTO DOBLES MORA DESTACOU-SE EM DIVERSOS POSTOS TANTO EM SEU PAÍS COSTA RICA, COMO EM NÍVEL INTERNACIONAL. • Doutor em Administração de Empresas, Universidade de Paris, França Cargos públicos: Experiência internacional: Reconhecimento: |
Vão
ocorrer eventos extremos hidrometeorológicos
maiores, como por exemplo furacões,
tornados, inundações.
De que maneira tudo isto afeta a
questão da água?
Pode afetar, porque se não
forem tomadas providências, se não for
analisada a vulnerabilidade das diferentes
bacias e as medidas de adaptação, pode
haver escassez de água, além dos outros
problemas que a água sofre, superexploração
de aqüíferos, contaminação, etc.
Por isso, neste ano estamos terminando
o primeiro balanço hídrico nacional
na Costa Rica, que é uma análise
das principais bacias hidrológicas deste
país e inclui todos os recursos
superficiais, e também os subterrâneos,
a análise de seu estado, tanto em
recarga como em descarga, e as medidas
de adaptação, para proteger o recurso
hídrico diante da mudança
climática. Ele não é apenas um recurso
para a vida humana, mas também para
a alimentação e a agricultura, é fundamental
para os ecossistemas, tanto os
montanhosos como os costeiros e todos
os intermediários.
O PNUMA analisou a questão da
água do ponto de vista da transparência
em seu manejo?
A água é um dos principais
assuntos, não somente em nível de PNUM,
mas também em qualquer outro fórum, e
no caso da Costa Rica defendemos uma
reforma do projeto de lei que está sendo
discutido na Assembléia Legislativa, que
introduz de uma maneira muito inovadora,
no âmbito mundial, novos mecanismos
ou instrumentos jurídicos para
enfrentar a mudança climática com relação
ao recurso hídrico.
Por outro lado, para dar maior transparência ao sistema, na Costa Rica já avançamos muito e, por exemplo, todo o sistema de concessões de água neste momento já está na Internet, ou seja, qualquer pessoa pode acessar a página e ver quem são as pessoas ou empresas que têm concessões, tanto de águas subterrâneas como de águas superficiais, quanto é, quanto é permitido para concessão, sua extração, etc. (www.drh.go.cr). Isto faz parte da transparência que desejamos e vai ajudar a sociedade civil a ficar informada do que está sendo feito.

América Latina tiene mucho que enseñar y aprender para la conservación de los recursos,
por eso los esfuerzos deben ser conjuntos. Foto Carmen Abdo
como está sendo feito, por quê está sendo feito.
Por outro lado, o que o senhor acha
de políticos como Al Gore ficarem à
frente de uma campanha pela defesa
do ambiente?
(...) Acho que é bom, porque
uma das vantagens é que o problema da
mudança climática foi levado ao grande
público, pois vinha sendo dirigido por
cientistas, primeiro, depois por economistas,
mas esta não é uma questão
unicamente ambiental, é uma questão de
saúde, econômica, de segurança alimentar.
De acordo com os estudos existentes,
vai haver uma desaceleração da economia
mundial, até mesmo uma recessão, e é
por isso que já foi adicionada ao
‘aquecimento global’, a expressão ‘esfriamento
econômico global’, porque isto
tem relação com a economia, com a
segurança mundial, com a destruição da
biodiversidade e finalmente com a
humanidade como um todo; tem relação
com um enorme sofrimento humano,
devido a muitos eventos, incluindo os
fenômenos hidrometeorológicos extremos,
furacões, inundações, tornados,
mas também com à futura insuficiência
de alimentos e de pesca.

